Arquitetura Organica

23 outubro 2005

rota luminar
Rota Luminar é o caminho que se faz na conquista da autonomia, da liberdade.
É o processo que promove a expressão do próprio potencial criativo, que quando manifesto traz brilho e luz.

É alegria no encontro do verdadeiro lugar lugar de poder, que é o lugar de poder ser quem se é.

http://www.rotaluminar1.blogspot.com



10 outubro 2005






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ao@arquiteturaorganica.com.br

02 outubro 2005




transhumanismo
veja filme de 4'

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onda de frequência


Toda a Criação vibra. E, toda vibração gera uma onda de freqüência, que é capaz de delinear uma forma. Qualquer freqüência que vibre durante certa quantidade do que chamamos de tempo, pode ser mapeada, pois pode ser desenhada num gráfico. Portanto, o mapeamento (o gráfico) de qualquer freqüência é a sua forma (no eletrocardiograma, por exemplo).

Assim, são incontáveis as formas que podemos ver, pois elas são mapeadas, são escritas na nossa dimensão, por suas ondas de freqüências correspondentes. Portanto, todas as formas geométricas são mapeamentos de diferentes freqüências, formas geométricas estas, que podem ser a de um círculo, de um triângulo, de um quadrado, de um pentágono, de uma espiral, ou de qualquer uma outra forma. Cada uma destas formas tem a sua linguagem de padrão de freqüência, tem a sua onda de freqüência.

Portanto, é a onda de freqüência que delineia a forma. E, é pela forma que a linguagem vibracional dos símbolos se mostra, se faz nas "placas". Os símbolos com as suas ondas de freqüência, são a "escrita cósmica" das "placas", que por sua vez, estão sintonizadas com a onda de freqüência de cada um daqueles que teve a responsabilidade de acessá-las. Quando escrevemos uma carta, por exemplo, as palavras e as frases que nela estão colocadas, nos transmitem idéias. Nas "placas" os símbolos são uma escrita vibracional, não expressam idéias. Nos símbolos, como em toda a "placa", vibram "n" informações, em uma leitura, já intuitiva, de uma escrita que transcende os limites tridimensionais do nosso entendimento.

Estamos constantemente interagindo com outras freqüências de ondas. O nosso corpo emite uma onda de freqüência que é a nossa identidade vibracional. Somos mais do que achamos ser, mais do que o nosso corpo tridimensional nos força a ser. Ser mais do que somos significa que somos tanto uma forma de onda eletromagnética, como um campo cósmico de memória que movimenta.

Só depois que aceitarmos as nossas limitações, provenientes das nossas imperfeições, é que estaremos realmente entrando na nossa forma de onda, pois, só depois que começarmos aceitar a verdade de sermos nós mesmos, que poderemos começar a nos amarmos, que começaremos a nos descobrir, que começaremos ter a nossa consciência dimensional.

Saiamos da negativa constante dos nossos bloqueios cercados por resistentes defesas e artifícios de negação. Saiamos do nosso vício que fica recriando um padrão de freqüência constante de não nos amarmos, de não nos transformarmos. A nossa freqüência de onda passa pela unicidade. Nós somos. Somos a humanidade. Através de mim mesmo eu conheço você e você me conhece. Um é o referencial do outro. Cada ser humano é a sua forma de onda única, mas também toda a humanidade é uma forma de onda.

A Terra, um ser cósmico vivo, é a sua forma de onda única, como também o Sol e o Sistema Solar são as suas próprias formas de ondas. A galáxia também é uma grande onda de freqüência. Todo o universo vibra, com ondas de freqüência dentro de outras ondas, com ondas de freqüência gerando outras ondas.
Tudo está vibrando, tudo está em movimento.



o ócio criativo

DE MASI, Domenico. 4ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 336p.]
Domenico De Masi apresenta seu livro, reescrito em 2000, a partir de uma releitura das edições de 1995/1997. O autor refere-se ao seu novo texto como sendo fruto de um novo contexto e da crescente insatisfação diante do modelo centrado na idolatria do trabalho e da competitividade.
Propõe a criação de um modelo novo que redistribua o trabalho, a riqueza, o saber e o poder.

Escrito sob a forma de uma entrevista, tendo como interlocutora Maria Serena Palieri, a obra compõe-se de uma introdução e quatorze capítulos.Na introdução, a entrevistadora tece considerações iniciais sobre o tema e faz uma pequena biografia do autor.

O primeiro capítulo, inicia com a abordagem do tema e segue com o autor descrevendo o desenvolvimento do ser humano até o advento da sociedade industrial. Centra nas questões relativas ao trabalho e à tecnologia e salienta as transformações da época onde, segundo o autor, a união de três fatores de mudança determina a mudança paradigmática. São estes fatores a descoberta de novas fontes energéticas, uma nova divisão do trabalho e uma nova organização do poder.

No segundo capítulo, o autor inicia falando sobre a sociedade industrial, suas origens no Iluminismo, suas características e o conceito de trabalho que se estabelece nesta época.

No terceiro capítulo, aborda as características da industrialização e os princípios sobre os quais ela se estabelece, tais como, estandardização, especialização, sincronismo, maximização, centralização, concentração, que compõem, em resumo, uma racionalização.

O quarto capítulo inicia com a discussão sobre o possível fim da sociedade industrial e o autor posiciona-se dizendo que o contexto atual não pode ser considerado como uma continuação da sociedade industrial. A seguir, defende esta sua afirmação enumerando as razões que a determinam e passa a falar da sociedade pós-industrial e da cultura pós-moderna.

No quinto capítulo, fala sobre o nascimento da nova sociedade e discorre principalmente sobre as mudanças no capitalismo e no trabalho, que caracterizam esta nova sociedade. Em relação à economia e ao trabalho retrocede fazendo um apanhado sobre o desenvolvimento econômico e sobre as relações e condições de trabalho até a época atual. Enfatiza as mudanças da produção para os serviços e a predominância do trabalho intelectual sobre o trabalho manual, tudo atrelado à mudança tecnológica.

No sexto capítulo, usando as concepções de Alvin Toffler, retrata as transformações pós-modernas nos aspectos sócio-econômicos-políticos-culturais, com ênfase nos culturais.

No sétimo capítulo, caracteriza a sociedade pós-industrial como uma sociedade previdente e programada. Fala da pesquisa científica e sua importância nos processos econômicos. Pontua a emergência da mídia e do marketing como mediadores nos ciclos de giro do capital. Caracteriza as relações pós-industriais como basicamente uma guerra entre empresas e propõe que os meios de sobrevivência dos pobres consistirão em prover audiência televisiva para os ricos. Nisso tudo, embora acredite na decadência dos conflitos de classe, aponta, com Alain Touraine, a divisão da sociedade em 'dirigentes', 'dominantes', 'defensivos' e 'propositivos'.

No oitavo capítulo, faz um resumo das características condicionantes da sociedade pós-industrial. Aborda a globalização, o progressivo aumento do tempo livre pelo desenvolvimento tecnológico e pela nova configuração do trabalho, a intelectualização do trabalho, a subjetividade. Acrescenta às características anteriores a questão da desestruturação tempo-espaço e o nomadismo geral na vida contraposto a um sedentarismo nas ações diárias. No aspecto da razão, diz que a sociedade pós-industrial tem como valor a emoção e a feminilidade características de uma sociedade andrógina.

No nono capítulo, fala sobre o trabalho e propõe que, atualmente, reduzir para uma carga de 5-6h/dia de trabalho não afetaria em nada a produção. Enfatiza os aspectos culturais como condicionantes do maior tempo de permanência no trabalho. Fala sobre o teletrabalho e, na questão do desemprego, advoga que somente se reduzida a jornada para umas 3 horas/dia e implantada uma semana e mês menor de trabalho, seriam criados novos empregos.

No décimo capítulo desenvolve o assunto do teletrabalho e da crescente evolução tecnológica e suas implicações.

No décimo primeiro capítulo, fala sobre o futuro do trabalho, seu centramento nas atividades intelectuais criativas e as condições necessárias para a sua existência. Retoma conceitos de ócio e ócio criativo e interpõe uma nova cultura em detrimento da atual cultura empresarial que é autoritária e rígida.

No décimo segundo capítulo, aborda as transformações culturais por vir. Fala sobre a emergência da virtualidade e de um sujeito digital. Um sujeito que tende ao ecletismo, a colagem, ao ecologismo, e que confunde tempo livre e trabalho, mas que vive, em geral da renda familiar.

No décimo terceiro capítulo, De Masi continua falando do futuro. Propõe que devemos trabalhar baseados na 'solidariedade de estímulos criativos' ao invés de como dever e projetar continuamente nossa existência. Tece considerações de como será a sociedade no futuro considerando as palavras-chaves de 'complexidade' e 'descontinuidade', aceitando a velocidade e aprendendo a manejar o tempo.

No décimo quarto e último capítulo, De Masi aborda a criatividade e a educação para a criatividade como motores das mudanças no trabalho e nos processos organizacionais. Resume e aprofunda o entendimento sobre o ócio criativo. Rejeita os modelos sociais existentes como inadequados, mas não propõe concretamente uma alternativa. Finaliza falando sobre a ética do ócio como uma filosofia de viver.
Suzana Gutierrez

entrevista domenico de masi

Você já imaginou fazer apenas o que gosta a vida inteira? Mas e daí, viveria do quê? Sonhos? Se imaginarmos o trabalho como um fardo, a situação realmente parece impossível. Mas e se o trabalho, o lazer e o estudo começassem a se misturar em nossas vidas de tal forma que não desse mais para diferenciar uma coisa da outra? Esta é a proposta de Domenico de Masi, sociólogo italiano da Universidade La Sapienza, de Roma, e presidente da Escola de Especialização em Ciências Organizativas, a S3 Studium.

Ele defende a idéia que é chegado o momento de cultivarmos o ócio criativo para uma nova era. Utopia? Não. Cada vez mais pessoas e empresas aderem aos seus conceitos e passam a ter vidas mais felizes e produtivas. A produção desta entrevista ocorreu dentro do conceito de teletrabalho e envolveu pessoas comprometidas com esta idéia. Luiz Carlos Pires, jornalista e antropólogo, coordenou a equipe formada por Sonia Grisolia, Manoel Fernandes Neto e Mario Persona. A tradução é de Cristina Fioretti.

Pergunta: Quais foram os ganhos tangíveis e os que continuam intangíveis na revolução virtual do trabalho e no tempo livre, observados no XV Seminário de Ravello, onde o senhor foi um dos organizadores ?

Domenico De Masi: Os ganhos tangíveis consistem no fato de que se consegue produzir mais bens e serviços com menor esforço físico e menos stress intelectual. Os ganhos intangíveis estão na possibilidade de se usufruir, em tempo real, de uma rede de interlocutores, de amigos, de colaboradores.

Pergunta: Reunidos no Japão na mesma época do Seminário, os sete países mais ricos do mundo acharam que para a nova economia ser implantada em todo o planeta os ricos precisariam dar Internet para os pobres. Como os filósofos em Ravello viram isto ?

Domenico De Masi: De espontânea vontade os ricos nunca darão nada aos pobres. É necessário que os pobres saibam defender os seus direitos e obter as próprias vantagens. Em todos estes anos nos quais o G7 se reuniu, na América o número de presos dobrou e em todo o mundo aumentou a distância entre ricos e pobres.

Pergunta: Na Widebiz, na Nova-e e na wwwWriters, empresas virtuais, o teletrabalho faz parte dos seus cotidianos, onde se mistura prazer, estudo e trabalho, mas também se sente culpa pela liberdade, o que nos leva a trabalhar mais e, às vezes, não sabemos se estamos trabalhando por culpa ou diversão. O aprendizado do ócio criativo passa por esta etapa em que não percebemos que estamos transformando o paraíso num inferno ?

Domenico De Masi: O ócio criativo é uma arte que se aprende e se aperfeiçoa com o tempo e com o exercício. Existe uma alienação por excesso de trabalho pós-industrial e de ócio criativo, assim como existia uma alienação por excesso de exploração pelo trabalho industrial. É necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc.

Pergunta: Hoje na Internet percebemos, por um lado, os poderosos de sempre tentando cercear e organizar o caos, e por outro, os "criativos" inventando soluções que pulam estas barreiras, como os programas Napster e o Gutnella. A sociedade criativa sobre a qual o senhor fala estaria nascendo aqui e como se distribuiria nela o poder ?

Domenico De Masi: Na sociedade industrial a maioria das funções de trabalho exigia pouquíssimas aptidões profissionais. Mesmo um macaco poderia trabalhar na linha de montagem. Na sociedade pós-industrial a maioria das funções de trabalho exige notáveis aptidões intelectuais. Disso deriva o perigo de um superpoder das classes profissionais, de uma ditadura dos clérigos sobre os leigos.

Pergunta: O senhor acha que as novas empresas ponto-com já administram seus recursos humanos de forma inovadora?

Domenico De Masi: Os call-center são linhas de montagem muito parecidas com aquelas com as quais a Ford construía o velho Modelo T. As empresas pós-industriais ponto-com administram os recursos humanos como se fossem velhas empresas industriais. Ainda ninguém inaugurou modelos organizacionais baseados na motivação (no lugar do controle), na desestruturação do tempo e do espaço, na redução do horário de trabalho, na perfeita igualdade entre homens e mulheres.

Pergunta: O senhor vê o teletrabalho que algumas empresas já adotam como a forma correta de motivar, bastando para isso estar longe da empresa no mundo real para ser mais criativo? O que é, na sua opinião, um modelo de relação de trabalho ideal?

Domenico De Masi: O teletrabalho serve para economizar tempo, dinheiro e stress. Sozinho, não assegura nenhuma criatividade. Uma relação de trabalho ideal permite aos trabalhadores não apenas ganhar dinheiro, mas também de satisfazer as necessidades de introspecção, amizade, amor, diversão, beleza e convivência.

Pergunta: O senhor enxerga a instituição do trabalho como a conhecemos hoje como inadequada. Suas idéias não poderiam vir a se tornar em uma nova instituição, sujeita também ao envelhecimento?

Domenico De Masi: Todas as idéias estão sujeitas ao envelhecimento. Esta é a lei do progresso.

Pergunta: Idéias são importantes, porém colocá-las em prática são sempre um desafio. O senhor acredita que suas idéias devam ser colocadas em prática, ou seriam elas apenas uma previsão do que acontecerá naturalmente ? Domenico De Masi: Nenhum progresso acontece automaticamente. É necessário criar um movimento de opinião e depois um grupo de luta para colocar em prática as idéias inovadoras. Pergunta: Toda a economia convencional está baseada na forma como trabalhamos hoje. Não haveria uma mudança drástica na economia caso suas idéias fossem postas em prática, ou será que seria necessário primeiro uma mudança na economia para criar o ambiente propício à concretização de suas idéias?

Domenico De Masi: As mudanças estruturais e aquelas culturais se influenciam entre si. Eu espero que a difusão de minhas idéias consiga criar um grupo crítico de pessoas dispostas a mudar realmente o seu modelo de vida e lutar para conquistar a felicidade.

Pergunta: O senhor poderia dar um exemplo de algum país ou empresas que já estejam aplicando suas idéias, ou parte delas, com resultados positivos e que possamos identificar?

Domenico De Masi: Em todo o mundo começa a haver pessoas ou grupos ou empresas ou cidades que impõem os seus modelo de vida sobre bases completamente novas. No Brasil é suficiente ver o caso de Ricardo Semler em São Paulo, o caso de Lerner em Curitiba, o caso de Oscar Niemeyer no Rio.

Pergunta: Muitas pessoas simpatizam com suas idéias. Estariam elas apenas concordando com sua natureza abstrata porque não gostariam de mudar tanto ?

Domenico De Masi: A maioria das pessoas que concorda com as minhas idéias sente uma real necessidade de modificar o modelo de vida imposto ao ocidente americanizado sob o impulso do pensamento empresarial: competitividade cruel, stress existencial, prevalência da esfera racional sobre a esfera emocional.

Pergunta: Sabemos que todos estamos, de um modo ou de outro, descontentes com o modo de vida que levamos, o que nos leva a filosofar sobre alternativas sonhadas. O sucesso de suas idéias não poderia ser atribuído justamente ao fato de poder ser tomado como algo intangível pelas pessoas, algo irrealizável ?

Domenico De Masi: Espero que não.

Pergunta: O senhor disse que gostaria de alimentar seus dias de ócio criativo no Brasil. Como isto seria possível num país que, apesar de sua dança, oralidade, alegria e sensualidade, é extremamente injusto socialmente ?

Domenico De Masi: Diz Oscar Niemeyer, isto é, o maior arquiteto vivo: "O que conta não é a arquitetura mas os amigos, a vida e este mundo injusto que devemos modificar". E diz também: "Se eu fosse um homem rico, me envergonharia". Se eu vivesse no Brasil, procuraria imitar Oscar Niemeyer.

Pergunta: A natureza das empresas hoje é bem diferente daquilo que o senhor imagina como sendo ideal. O senhor acredita que mudanças drásticas precisariam ser feitas em todo o sistema produtivo para poder abraçar uma nova forma de trabalho?

Domenico De Masi: Não. Podem começar também em empresas individuais. Quando uma empresa inaugura um modelo organizacional baseado em minhas idéias, ganha muito mais e os seus trabalhadores são muito mais felizes.

Pergunta: Como o senhor vê a contribuição da Internet e de uma sociedade voltada para o virtual na concretização de suas idéias ?

Domenico De Masi: A Internet é uma oportunidade maravilhosa. Estou feliz em viver em um mundo onde existe a Internet.

Pergunta: Que conselho o senhor daria a um empresário que quer redesenhar sua empresa levando em consideração suas idéias ?

Domenico De Masi: Que venha para a Itália, para minha escola, e fique conosco todo o tempo necessário para projetar uma empresa feliz.

Pergunta: Na relação de trabalho, o senhor acha que o Estado deve ajudar a direcionar para o ideal ou simplesmente tirar sua mão do processo e deixar que ele aconteça naturalmente ?

Domenico De Masi: No contexto humano, nada acontece naturalmente: tudo é fruto da inteligência, da programação e da vontade das pessoas. Só o liberalismo crê que o mercado resolve "naturalmente" todos os problemas.

Pergunta: Quanto mais a sua teoria é debatida mais empresas surgem com conceitos duvidosos: desenvolvem uma nova visão da escravidão onde o chicote é um sistema interno de comunicação terrorista que apregoa o trabalho e a servidão como único bálsamo para o desenvolvimento profissional. Gostaríamos que o senhor comentasse esta questão e dissesse quanto tempo vai demorar para estas empresas perceberem o equívoco. Domenico De Masi: Muitos seres humanos são masoquistas. Depois se tornam sádicos. Depois se tornam sadomasoquistas. Não sei se ou quando as minhas idéias triunfarão. O meu dever é difundi-las e agir tenazmente para que se firmem o mais rápido possível.Pergunta: Quando o homem vai usar a tecnologia favoravelmente a um estilo de vida enriquecedor?Domenico De Masi: Ricos economicamente? Hoje já é usada com esta finalidade. Ricos humanamente? Quando substituirmos uma sociedade competitiva por uma sociedade solidária. Pergunta: É possível humanizar o capitalismo ? Domenico De Masi: O capitalismo é baseado no egoísmo e na competitividade: isto é, sobre premissas brutais, não humanas. Portanto é impossível humanizá-lo. Pergunta: A nanotecnologia prevê um futuro sem fome, doenças, velhice e trabalho. O natural seria estar desempregado e fertilizando uma sociedade efetivamente criativa e ociosa. Mas como somos impulsionados pelas ambições pessoais de TER e não de SER, esta mudança de foco drástica não seria pura utopia, relegando a nanotecnologia a categoria de não compatível com a espécie humana?
Domenico De Masi: A espécie humana sempre combate a sua incansável luta contra a morte, a dor, a miséria, o cansaço. Um bilhão de pessoas já conseguiu vencer esta batalha contra a dor, a miséria e o cansaço. Resta a morte, mesmo se vivemos o dobro de nossos bisavós.

Pergunta: Como o senhor sente o ócio contemplativo, o ócio pelo ócio, o simples prazer de contemplar a vida ?

Domenico De Masi: Eu não gosto do ócio puro: depois de um pouco de tempo, me aborrece. Eu gosto do ócio "criativo": isto é, a síntese do trabalho, do estudo e da diversão. O ócio criativo nunca me aborrece. Nem mesmo se tenho que responder a 22 perguntas.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante.
Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras.



formação de uma consciência crítica


www.agnosticismo.com.br

1. O agnóstico admite como princípio fundamental que não é possível conhecer nada que esteja fora de suas possibilidades de conhecer e que estas se esgotam no finito e não abrangem, portanto, o transcendente.

2. Para o agnóstico, o Deus transcendente das religiões monoteístas é uma arbitrária hipótese metafísica, indemonstrável por não haver, de Deus, nenhum atributo objetivo capaz de ser refutado, resultando daí o lema: “tudo se pode dizer do que não se pode refutar”. Assim, de Deus pode-se dizer tudo porque não se conhece nada. Não havendo possibilidade de verificar a hipótese da existência de Deus, o agnóstico se despreocupa dela. Não se propõe questões cuja verificação não é possível.

3. O agnóstico considera admissível a crença cujo objeto seja uma hipótese plausível sobre a origem e o sentido do mundo. Inclui também como hipótese plausível a que nega sentido às questões escatológicas, entendendo que o sentido do mundo é o que lhe dá o homem, pois as coisas não têm um sentido além de sua mera existência. As coisas são o que há, sem mais. O sentido de cada ente depende do próprio sentido que o ser humano lhe dá, decorrente de seus interesses pessoais, de sua personalidade, de sua maneira de ver as coisas enfim, sem especulação sobre algum suposto horizonte religioso como matriz criadora ou definidora dos fins do mundo.

4. O agnóstico está perfeitamente instalado na finitude, ou seja, na realidade material e imaterial que constitui o que existe, em contraposição ao transcendente, tanto naquilo que chamamos matéria como no que chamamos espírito, que não podem existir separadamente um do outro.

5. Para o agnóstico, o espírito é parte do mundo e portanto pertence à finitude. Por conseqüência, a espécie humana se realiza no que chamamos matéria, sem que se possa omitir no conceito de matéria sua relação substancial com o espírito, formando com ele um todo indivisível.

6. O agnóstico não é tomado pela fé transcendente: fé que não procede de Deus, admitido como hipótese indemonstrável, mas que determina a existência de Deus e de todos os seres celestes, e que, além disso, é excludente. Assim, cada um dos três monoteísmos ocidentais_ judaísmo, cristianismo, islamismo_ nega a “verdade” propagada pelos outros dois e engendra, por sua própria natureza, intolerância e fanatismo, contra o que se posiciona o agnosticismo.

7. O traço comum dos três monoteísmos _ a fortíssima impregnação antropomórfica de um Deus pessoal, que pode estabelecer uma relação com os fiéis­ _ nada tem a ver com a relação iogue com o transpessoal. Daí que as transformações esotéricas da piedade cristã (respeito às questões religiosas) em formas de mística oriental não só não potencializam a fé monoteísta, como tendem a esvaziar seu sentido. Muitos cristãos são inclinados a aderir ao Zen Budismo ou à Meditação Transcendental. Mas o que significa para eles Deus se o seu interlocutor pessoal é uma energia infinita? Que pode significar sua imortalidade se já não são mais do que uma nuvem de ondas ou partículas que se espargem num todo energético após a cremação? São todas formas alienatórias de consciência, que o agnosticismo nega definitivamente, inclusive porque conceber a Igreja Cristã, ou qualquer religião, como um corpo homogêneo de crenças do qual os fiéis participam por igual, é uma ilusão. Há, portanto, para o agnóstico, que não admite tais concepções, uma tranqüilidade vital, que provém de estar isento e satisfatoriamente instalado na finitude.

8. Mas o “não ser tomado pela fé transcendente” do agnóstico, não é uma simples negação, mas, ao contrário, uma posição dialética de conteúdos definidos, que se verificam no marco de um processo histórico-cultural que deve ser bem entendido. Este processo, que exige estudo acurado, remete a um campo semântico que proporciona um rico tecido de convicções éticas, sociais, políticas e econômicas, de contornos precisos e racionalmente analisáveis. O mundo, para o agnóstico, é assumido como finitude, o que revela todo o conteúdo positivo da concepção agnóstica.

9. O agnóstico admite que a fé transcendente pressupõe uma afirmação inquestionável, portanto, uma “verdade absoluta”. Mas tal “verdade” não poderia ter sido estabelecida por Deus, que é apenas uma hipótese personificada pelos monoteísmos. Foi portanto estabelecida por homens, ao longo da história, tendo sido, através de manipulação e adaptações, modificada em sua formulação original de acordo com interesses específicos.

10. O agnóstico admite que a fé se reduz, definitivamente, a uma esperança de imortalidade num mundo celestial, capaz de aplacar o “terror mortis”, e que é supostamente capaz de promover a concessão de “graças”. Por não ser baseada em fatos que se possam refutar objetivamente e por não possuir uma base empírica intersubjetiva, não permite a argumentação. Portanto, para o agnóstico, ante o fenômeno da fé nada cabe senão o silêncio.

11. O agnóstico aceita e vivencia intensamente o agnosticismo, palavra derivada do grego pela composição da partícula “a”, que nega a noção subseqüente, e de “gnosis”, que significa conhecimento. Portanto “agnosis”, através da transliteração de “agnostos”, significa “não conhecido” ou “ignorado”. Assim “agnosticismo” é a doutrina que nega à inteligência humana a capacidade de conhecer a “verdade absoluta”. Admite que a fé é a submissão a determinada afirmação de ordem transcendente, aceita como verdadeira quer seja ou não. O agnóstico, porém, respeita a fé professada pelas pessoas, na convicção de que frente a este assunto todos os argumentos desmoronam porque a fé não argumenta, simplesmente crê.

12. O agnóstico, por estar perfeitamente situado na finitude, não admite uma realidade transcendente. Como decorrência desta concepção, ficam eliminadas de pronto, por falta de um embasamento racional todas as superstições, crendices e os clichês de natureza religiosa (graças a Deus, se Deus quiser, etc), que constituem o crivo pelo qual devem passar todas as afirmações.

13. O agnóstico se impõe como o ser humano sem tragédia teológica, isto é, sem viver a contradição entre a vida neste mundo e a vida além deste mundo, pois para ele só existe este mundo, isto é, a finitude. E nessa convicção se encontra a serenidade vital do agnóstico, para o qual os acontecimentos de sua vida são fatos que se dão sem nenhuma causação exterior ao mundo. A ausência do transcendente dá serenidade sem resignação, pois esta supõe uma instância superior à razão que determina as contradições do mundo. O mundo há que aceitá-lo como é.

14. O agnóstico tem como meta permanente a auto-realização e portanto a felicidade, posto que esta é conseqüência daquela. A auto-realização, como pressuposto da felicidade, implica, como o nome diz, em ser _ apesar de suas deficiências _ auto-realizado, isto é, um ser humano integral, não instrumento de uma autoridade transcendente de qualquer tipo, não resignado, não infeliz, não desencorajado pelas vicissitudes da vida, não culpado pelo pecado de Adão (que exige a “Redenção”), mas sim consciente de sua capacidade de realizar o seu potencial e de manter-se imperturbável ante o sofrimento.

15. A satisfação do agnóstico é a satisfação do que o mundo pode oferecer, mesmo nos casos em que a finitude é dor ou preocupação, procurando, na medida do possível, reverter tais situações, mas capaz de assumir, com coragem e fortaleza, aquilo que a finitude lhe apresenta.

16. O fundamento do agnosticismo consiste em assumir radicalmente a finitude do ser humano, sem o álibi da transcendência ou de qualquer ideologia, esforçando-se por construir um mundo não tomado pelo fanatismo determinado pela fé, produzindo códigos de valores favoráveis ao respeito à vida, à liberdade, à justiça e à lealdade.

17. O agnóstico admite que a idéia de uma verdade intemporal, definitiva e absoluta outorgada por uma divindade onisciente e administrada por uma burocracia clerical, não engrandece o homem, apenas consagra a credulidade dos que dão as costas à razão.

18. O agnóstico aceita a possibilidade da transformação da consciência, sem o que o agnosticismo não pode ser vivido em sua plenitude, pois exige uma alta capacidade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados, avaliados pela própria consciência. A idéia subjacente é a de que o que conta é o que sentimos e fazemos e não apenas o que dizemos, e que, portanto, somos os únicos responsáveis pelo sentido que damos às nossas vidas, posto que não existem poderes misteriosos fora de nós mesmos, e que, portanto, devemos aprender a superar os bloqueios que nos impedem de realizar-nos autonomamente alçando-nos acima das sempre enganosas ideologias.

19. O agnóstico, liberto de toda classe de dependência, reconhecendo e desconstruindo, através do estudo, da pesquisa, e da prática cotidiana, as falsas crenças e bloqueios que obstruem a mente, torna-se um terapeuta do seu espírito, capaz, finalmente, graças a uma autodeterminação total, de chegar ao encontro de sua própria força interior e de exercê-la.

20. O agnóstico não admite a existência de almas nem de espíritos que se movam livre, misteriosa ou sigilosamente numa realidade transcendente. Admite sim a existência de seres humanos em que a dualidade matéria espírito não implica em cisão ontológica, seres humanos que nascem e morrem no único mundo que existe, o mundo do aqui, mesmo que a finitude inclua realidades não vizualizadas.

21. Totalmente liberto, o agnóstico contribui para o processo evolutivo global. Em outras palavras: o despertar da própria consciência para um mundo novo promove a elevação da consciência dos que o cercam e também contribui para a plenitude do humanismo. Este processo é ao mesmo tempo popular, porque é acessível a todos os que tiverem vontade de se integrar, e elitista porque só a elite intelectual decidida a elevar a consciência e a mudar a realidade pode fazê-lo.

Fonte:
extratos de ‘Agnosticismo’ e ‘Razão Religião e Estruturas de Poder’
Ed Juruá de João Laurindo De Souza Netto



viver é diferente de sobreviver


É triste ver tanta gente lutar para sobreviver. E não estou falando apenas daqueles que ganham salário mínimo,mas de executivos que vivem angustiados com tantas pressões, de empresários que fogem de suas famílias, pois não aprenderam a amar, de pessoas de todos os níveis sociais que estão sempre assustadas perante a vida.

São pessoas que não vivem. Apenas sobrevivem, como se estivessem numa crise asmática permanente: aquela eterna falta de ar e, de vez em quando, o alívio rápido e passageiro. Logo depois sentem de novo o sufoco insuportável. Essas pessoas não vivem, sobrevivem.

E apenas sobreviver é trabalhar em algo sem sentido só para manter o salário; é fazer joguinhos de poder para manter o emprego; é sair com alguém que não se ama somente para aplacar a solidão; é ter relações sexuais só para manter o casamento; é não conseguir desgrudar os olhos da TV, com medo de escutar a voz da consciência; é ter de tomar alguns drinques para conseguir voltar para casa.

A sociedade nos pressiona diariamente para nos transformar em máquinas. Todos os dias, pela manhã, uma multidão liga seu corpo como se fosse mais uma máquina e sai pela porta para uma repetição infinita de ações rotineiras sem nenhuma relação com sua vocação e seu talento. E muita gente chama a isso livre-arbítrio.

Depois vão a massagens, saunas, fazem um monte de ginástica em busca de um pouco de energia extra para, no dia seguinte, voltar a fazer o mesmo trabalho que não tem nenhuma relação com sua alma. Muitos estados de depressão são, na realidade, frutos de uma terrível sensação de inutilidade. Esse olhar vago do deprimido é muitas vezes o olhar de quem poderia ter aproveitado as oportunidades da vida, mas não soube valorizar o que era realmente importante.

Se, por acaso, você se identificou com a descrição acima, está na hora de mudar. Aproveite o início de semana e mude!

O filósofo espanhol Julián Marías escreveu que a infelicidade humana está em não preferir o que preferimos. Quando uma pessoa não prefere o que prefere, acaba se traindo. As escolhas de nossa vida têm sempre de privilegiar a nossa essência. Nossa vocação não tem nada a ver com ações sem afeto.

O ser humano nasceu para realizar o seu potencial! No entanto, quantas vezes acabamos nos dedicando exclusivamente à sobrevivência!Sobreviver e viver são experiências completamente distintas.

Viver é ser dono do próprio destino.
É saber escrever o roteiro da própria vida.
É ser participante do jogo da existência, e não mero espectador.
É viver as emoções, é ter os próprios pensamentos e viver os seus sonhos.

Sobreviver é administrar o tempo para que o dia acabe o mais rápido possível.
É conseguir ter dinheiro até o próximo pagamento.
Respirar de alívio porque chegou o final do expediente.
É ir resignado de casa para o trabalho e do trabalho para casa.
É adiar o máximo possível as mudanças para não ter de arriscar nada...

Chega de migalhas da vida! Chega de viver como um fugitivo, olhando para os lados, com medo de tudo e de todos! O ser humano merece mais do que simplesmente completar seus dias. Merece a plenitude da vida.

Fonte: recebido da Internet.



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ayahuasca








premissas









1. “Aqui não há dogmas, apenas evidências, subjetivas e objetivas; não se cultua nenhum guru, mestre ou xamã além do líder espiritual que cada um pode encontrar em si mesmo. Não existe, interposto entre os limites dos sujeitos em comunicação (os indivíduos) e entre esses e os objetos (o mundo) nenhuma entidade sobrenatural, oculta ou pressuposta a ditar regras, normas e prejuízos. A comunicação é limpa, clara e natural: o consenso fundamental, a intenção comum, é de buscar a expressão de mais virtudes para se aproximar sempre mais da criatividade, sabedoria e serenidade. Todos os participantes são recebidos como iguais - expressões do Universo - para compartilhar momentos, visões e conhecimentos: construir uma sabedoria conjunta à luz da Ayahuasca."

2. O Universo é o gerador da Vida e da Consciência.

3. O Universo é Autocriador. Ele se auto-organiza espontaneamente pelas interações fundamentais _fortes, fracas, eletromagnéticas, gravitacionais_ que são as operações básicas, da substância, da álgebra essencial _ a matéria-energia. Do fluxo constante matéria/energia, da interação constante de cada partícula, elemento e molécula, espontaneamente surgem padrões e organizações: nebulosas e galáxias, estrelas e sistemas solares, planetas, atmosferas, continentes, mares, florestas, plantas e todos os seres. Dessa dinâmica interativa e conjunta, todas as coisas se formam e se auto-desenham. Das propriedades fundamentais da matéria/energia, do conjunto interativo e progressivo das coisas no espaço tempo, resulta a geração sempre mutante de toda a ordem e beleza universal.

4. À medida que o ser humano cresce, vai, gradativamente, esquecendo que faz parte da totalidade universal. Passa a experimentar a si próprio, em pensamentos e sentimentos, como separado do resto, focado em sua vida mental, mergulhado em símbolos, centrado na esfera dos conceitos e de suas limitações.

Junto com a linguagem, adquire a habilidade de classificar as coisas em grupos, categorias e conjuntos, deixando, às vezes, de ver o mistério da sua unicidade, a surpresa, o inesperado, o imprevisto, o extraordinário da sua simples presença, da sua singularidade, da sua existência, da sua realeza.

Desenvolve como se fosse uma membrana, um véu, um filtro gramatical, entre o mundo e a sua existência. Entra num tipo de limitação, que acaba por restringir e condicionar a sua capacidade de se entusiasmar, de se encantar. A vida, a existência como um todo, parece perder algo do seu brilho, do seu encanto, tornando-se mais comum, familiar e trivial; ilusão de sua consciência, engendrada por automatismos e dissociações.

5. O que fazer? Buscarmos a Unicidade com o Universo gerador da Vida e da Consciência e a conexão com a Criatividade (Poder Criador). Cultivarmos uma relação com a Natureza, com o Sol, a Lua, as montanhas, as paisagens mais belas e inspiradoras, os céus estrelados, o arco-íris, os pássaros, as flores, toda a beleza universal. Em vez de admirarmos a natureza como uma produção, a obra magnífica de um deus criador, reverenciamos diretamente a Natureza pela sua força e poder, pela sua beleza, os seus mistérios e infinita grandeza.

Considerando esse mundo como um espaço sublime, do qual fazemos legitimamente parte, passamos a integrar a família universal sem nenhuma ressalva. O planeta Terra passa a ser a nossa morada real e assim sendo e como conseqüência direta, tendemos a assumir um profundo interesse ecológico - zelar pela conservação e expressão mais bela da natureza torna-se uma prioridade. É um caminho místico em busca da realização da unidade. Em busca de compreender que não só as coisas são interconectadas, mas que são tecidas da mesma substância, que formam uma totalidade, uma unicidade. O objetivo é simplesmente tentar entender o mais possível desse estado de coisa, e tentar através da meditação e da união mística experimentar essa união do ponto de vista qualitativo.
www.panhuasca.org.br


a ayahuasca



entrevista concedida pela antropóloga Bia Labate
www.altodasestrelas.blogspot.com


A pesquisadora Bia Labate analisa os novos modos de consumo do chá nos centros urbanos Substâncias alucinógenas são aquelas que, quando em contato com nosso sistema nervoso, propiciam estados de alteração da consciência -em maior ou menor grau. Embora elas tenham chegado à mídia associadas a rebeldes e artistas psicodélicos dos anos 60 e 70, seu uso é muito anterior e muito mais complexo do que se pode pensar à primeira vista.

Na natureza, existem cerca de 100 plantas classificadas desta maneira, dentre as quais a iboga, utilizada por aproximadamente 1 milhão de pessoas na África (e supostamente capaz de induzir um coma); o peiote, cacto amplamente consumido no México, cuja substância ativa é a mescalina; os cogumelos, que já apareciam em registros hindus da Antiguidade, e a ayahuasca, chá fabricado em diversas regiões da América do Sul, a partir do cozimento concomitante de um cipó (Banisteriopsis caapi) e de um arbusto (Psychotria viridis).

Nos quatro exemplos citados -mas também no caso da jurema e mesmo da Cannabis, entre os Rastafari- trata-se de plantas utilizadas no âmbito de rituais sagrados, pautados por cosmologias que lhes conferem sentido. É por isso que os pesquisadores deste campo evitam utilizar o termo "droga" -com conotação pejorativa-, preferindo falar em "plantas de poder" ou "enteógenos".

Este último termo engloba grego "teo" (deus), o que revela o papel que muitas sociedades e religiões atribuem a tais preparados vegetais: facilitar a comunicação entre a esfera humana e a divina, propiciar uma experiência de transcendência sensorial caríssima não apenas às culturas xamânicas, como também a vários segmentos das sociedades ocidentais.

No Brasil, existem três religiões criadas no século 20 que se baseiam no uso da ayahuasca. Todas são bastante sincréticas e combinam, em doses diferentes, desde o xamanismo indígena até o kardecismo, passando pelo catolicismo popular e pela umbanda. Nos rituais do Santo Daime, dança-se a noite inteira no embalo dos "hinários" e do efeito da bebida, produzida em sua sede na Amazônia.

A União do Vegetal, que hoje conta com o maior número de fiéis, organiza rituais mais sóbrios, sem os “bailados”, além de impor regras disciplinares rígidas, como a proibição de beber e fumar. Já a Barquinha, a menor dentre as três correntes e a menos espalhada pelo território nacional, é a única em que a entidade do "Preto Velho", típica dos rituais de influência africana, tem papel primordial.

As três religiões, assim como a extensão e a qualidade da influência -na esfera sagrada ou profana- dos psicoativos sobre nossas mentes, representam, por si só, objetos fascinantes para a antropologia. Mas a pesquisadora Bia Labate, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), opta, em seu novo livro, por um recorte particular e original dentro deste novo campo de pesquisas: analisa as novas modalidades de consumo do chá nos centros urbanos, mais especificamente em São Paulo.

Seu interesse é perceber como práticas e valores "tradicionais", oriundos da Floresta Amazônica, se ressignificam e se adaptam em novos contextos, junto a novos públicos. Não para mostrar como tais práticas estão sendo "desvirtuadas", mas para explicitar os mecanismos da dinâmica cultural -especialmente acelerados e plásticos em nossos dias.

Beatriz Labate é uma das pessoas mais ativas nesta área de pesquisa. Coordenou o Primeiro Congresso sobre o Uso Ritual da Ayahuasca (Iº Cura), em 1997, na Unicamp, uma parceria do Departamento de Antropologia com o Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da mesma universidade. É co-organizadora de duas coletâneas: “O Uso Ritual da Ayahuasca”, com Wladimyr Sena Araújo, publicada em 2002, e “O Uso Ritual das Plantas de Poder”, com Sandra Goulart, no prelo, ambas publicadas pela editora Mercado de Letras.

Em 2001, Beatriz Labate recebeu o prêmio da Anpocs (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais) pela melhor dissertação de mestrado. É sobre este trabalho, que será lançado em breve sob o título “A Reinvenção do Uso da Ayahuasca nos Centros Urbanos”, que a autora conversou com Trópico.

Para além da discussão da experiência profunda propiciada pela ayahuasca e do pastiche simbólico que caracteriza a alta modernidade, um dos maiores interesses do trabalho é sua sinceridade em explicitar dilemas éticos e metodológicos, devidos ao fato de a própria pesquisadora consumir a ayahuasca.

Na introdução de seu livro, você menciona que é “fardada” no Santo Daime, mas optou por estudar novos usos da ayahuasca em “centros terapêuticos” da metrópole. Isso foi uma maneira de driblar o risco de uma identificação total com o seu objeto? Acha que teria tido maior dificuldade para analisar uma religião à qual você mesma é filiada?

Beatriz Labate: Optei por estudar outros grupos ayahuasqueiros devido ao fato de já existir uma razoável bibliografia sobre o Santo Daime e porque a União do Vegetal é um grupo de difícil acesso. Achei que valia a pena abordar algo sobre o qual, até então, nenhum pesquisador havia detido seu olhar: aquilo que denominei "novas modalidades urbanas de consumo da ayahuasca".

Trata-se de pequenos grupos experimentais que utilizam a bebida em atendimento psicoterapêutico, por meio de vivências típicas do universo new age, em contextos relacionado à criação artística -teatral ou musical, por exemplo- e até em atividades com moradores de rua.

Mas esta escolha se deve também ao fato de, naquele momento, eu ter preferido não investigar o próprio Santo Daime, para permitir uma maior liberdade de interpretação em relação a minhas observações e descobertas. Acho que estudar uma prática na qual você toma parte -seja ela o movimento gay, o Santo Daime, a capoeira ou qualquer outra coisa- implica sempre em ocupar um lugar de fala arriscado, que pode trazer vantagens e desvantagens em termos da pesquisa, mas também no plano existencial.

Nunca fui uma daimista muito ortodoxa; desde o início, minha trajetória foi marcada por algumas restrições à instituição, pelo trânsito entre diversos grupos e pela alternância de pesquisa e participação. De qualquer forma, acredito que minha participação foi útil e positiva para a etnografia e tento explicitar por que ao longo do livro.

Você insiste na pertinência de pesquisas interdisciplinares sobre as “plantas de poder”, para que sejam contemplados também aspectos jurídicos e farmacológicos. Poderia contar um pouco sobre o tipo de pesquisa e de polêmica que o uso da ayahuasca suscita nestes dois campos, o do direito e o da medicina?

Labate: Do ponto de vista legal, a DMT, substância presente na folha do arbusto que compõe a ayahuasca, foi proibida pela Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas da ONU, firmada em Viena em 1971, da qual o Brasil é signatário. No entanto, temos uma situação particular, pois houve a compreensão, por parte do governo brasileiro, de que as práticas ayahuasqueiras fazem parte da “cultura amazônica”.

Assim, por meio de um parecer emitido pelo extinto Confen, em 1986, elas deixaram de ser proibidas, ganhando uma relativa legitimidade. Só que esta legitimidade é frágil -no momento, aliás, a disussão foi relançada pela criação de um novo grupo de estudos que analisará o tema. Há ainda outros pontos espinhosos, como a participação dos menores de idade nas cerimônias religiosas. Seria esta uma questão de pátrio poder ou o Estado tem o direito de interferir na decisão?

No que diz respeito à dimensão médica, vale lembrar que, até a década de 50, o discurso psiquiátrico predominante classificava o xamã como um psicótico. As décadas de 50 e 60 foram marcadas por um enorme avanço nas pesquisas científicas sobre os alucinógenos, projeto abortado com a proibição do LSD, em 1966. Houve toda uma série de experimentações com relação a potencialidade das plantas “psicointegradoras” (termo que veio substituir o preconceituoso rótulo “alucinógeno”) no tratamento de diversas enfermidades e males.

Alguns exemplos clássicos na literatura especializada são as experiências oficiais com LSD realizadas pelo psicólogo Timothy Leary, em Harvard, e pelo psiquiatra Humphry Osmond, no Canadá, que reportaram êxito na recuperação de dependentes de álcool e de delinqüentes; Stanislav Grof, por sua vez, realizou vivências de regressão aos estados perinatais através de psicoativos. Enfim, as virtudes médicas e terapêuticas de algumas substâncias permanecem um campo fértil a ser explorado.

Em nossa coletânea “O Uso Ritual da Ayahuasca”, publicamos uma pesquisa interessante, analisando as consequências bioquímicas e psíquicas do consumo da ayahuasca entre membros antigos da União do Vegetal.

Na representação etnográfica, usando suas próprias palavras, “uns têm o poder de observar e falar sobre os outros”. Por isso mesmo, a troca entre sujeito e objeto da pesquisa é fundamental. Você poderia dar alguns exemplos concretos nesse sentido?

Labate: Desenvolvi uma relação de pesquisa muito rica com o Janderson, o principal informante da tese, líder de um grupo new age que é uma dissidência do Santo Daime. Apesar de eu não me identificar pessoalmente com seu trabalho, ele me permitiu viver a minha “jornada iniciática” como antropóloga, a experiência do campo e do estabelecimento de uma relação de pesquisa.

Além do ganho profissional (não fosse a sua generosidade não teria recebido o prêmio), foi um belo laboratório sobre como se relacionar com o outro, o diferente, uma relação pautada pelo reconhecimento das nossas diferenças, pelo respeito e sobretudo pelo diálogo. É interessante mencionar, por exemplo, que dei meu texto final para ele ler e incorporei várias de suas sugestões.

No sentido inverso, acho que minha pesquisa permitiu a ele uma genuína reflexão sobre a sua própria trajetória, o sentido de suas práticas espirituais e profissionais. Minhas perguntas insistentes terminaram por estimulá-lo a elaborar melhor para si mesmo e para seu grupo as suas próprias crenças e práticas. Outra consequência evidente da minha investigação foi a institucionalização e a legalização de suas atividades. Além disso, sendo um homem místico, Janderson afirma que tive um importante papel espiritual na sua vida, mas caberia a ele falar sobre isto.

Um dos aspectos mais fascinantes do neoxamanismo é a questão da “autenticidade”. Enquanto alguns afirmam que se trata de “comerciantes do exotismo”, outros acreditam que a autenticidade simplesmente não existe e que a idéia de “nativo” seria uma invenção da antropologia. Partindo de seu conhecimento, tanto dos usos mais tradicionais, quanto dos mais “pós-modernos” da ayahuasca, o que teria a dizer sobre isso?

Labate: Não se trata de descobrir o "autêntico", nem o "verdadeiro". Esta não é a tarefa do antropólogo. Mesmo porque, se olharmos de perto os universos indígenas e vegetalistas, veremos como é difícil estabelecer o que é "original" -diga-se de passagem, grande parte das religiões já nasce sincrética. A antropologia tem procurado justamente refutar a visão essencialista da cultura. Ela olha a cultura como algo dinâmico, em constante movimento. Mais interessante, portanto, é tentar entender porque todo mundo reivindicar ser o "original", o "autêntico"? Procurei mostrar, em meu trabalho, como há uma rixa de legitimidade, um campo de forças em que se disputam bens materiais e capital simbólico.

Isto posto, o neoxamanismo é aquela porção da Nova Era que faz releituras específicas das tradições xamânicas ao redor do globo, criando uma espécie de "xamanismo universal", muitas vezes com cunho cristão. Esta recriação está fundamentada na apropriação livre e particular que os líderes fazem da literatura antropológica especializada e das publicações esotéricas sobre o mundo indígena.

O neoxamanismo é controverso, por tentar, na opinião de alguns autores, criar uma religião ameríndia única e homogênea, por meio da não-referência às comunidades e etnias e, sobretudo, da ausência de contato com os aspectos obscuros e conflitantes presentes no xamanismo. No outro pólo, "a favor" do neoxamanismo, argumenta-se que esta seria uma forma de colocar os brancos de classe média, ocidentais, em contato com tradições milenares, autóctones, despertando-os para outras sensibilidades, modos de vida, visões do mundo, etc.

Vale ressaltar que nem sempre é fácil separar o xamanismo do neoxamanismo. Durante um congresso realizado no Peru, em 1998, foram levantadas algumas características que, em geral, só estariam presentes num "verdadeiro" xamã: ele não faz auto-propaganda; o seu reconhecimento emana da comunidade; existe uma certa "inevitablidade" do seu destino -trata-se de uma missão, um chamado, que de certa forma é um fardo; o xamã tradicional pode curar, mas pode também causar danos. Mas é evidente que na prática as fronteiras não são tão claras...

Observa-se, atualmente, um processo de expansão de diversas religiões brasileiras no exterior -umbanda, Assembléia de Deus e o próprio Santo Daime, por exemplo. Você tem notícia sobre como elas são ressignificadas lá fora? Como fica a questão legal, no caso do Daime?

Labate: Há ainda poucas pesquisas sobre a expansão do Santo Daime e da União do Vegetal (UDV) para o exterior. Visitei o Santo Daime na Itália e na França e pude observar que vem ocorrendo uma espécie de inversão simbólica: lá, o caboclo da Amazônia é revestido de enorme poder e sabedoria -e começa a surgir um novo tipo de especialista religioso (que tende a formar uma rede de prestação de serviços particular). Os amazonenses parecem captar rapidamente estes significados e se apropriar deles... Na verdade, o mesmo já vinha ocorrendo nos centros urbanos do Brasil: o Acre e a Amazônia ganharam status de centros de peregrinação.

Outra característica dos rituais no exterior é que são acompanhados por uma maior rigidez, por aquilo que alguns autores denominam de “hiperreal”: uma constelação que procura ser mais real do que o próprio real. Justamente por se tratar de “imitações”, parece haveria a necessidade de se enfatizarem as regras, o modelo, para refutar a acusação de "cópias falsas". Eis, aliás, outra característica presente também na maioria dos templos urbanos brasileiros.

Outro aspecto interessante da expansão internacional da ayahuasca é que o português está adquirindo um caráter sacro, na medida em que, tanto no Santo Daime, quanto na UDV, os cantos são mantidos em seu formato original e os estrangeiros têm se dedicado a aprender nossa língua. Por fim, podemos notar que esta diáspora religiosa do Terceiro para o Primeiro Mundo tem permitido o estabelecimento de novas e inusitadas parcerias, como no caso de uma comunidade, na Califórnia, que participa simultaneamente dos ritos da Native American Church (consumidora do peiote) e do Santo Daime.

Por que, embora haja uma tradição de consumo da ayahuasca por xamãs e curandeiros do Peru, Colômbia, Venezuela e Equador, apenas no Brasil surgiram religiões não-indígenas baseadas no consumo da bebida?

Labate: É uma boa pergunta. Eu não sei ao certo... Os daimistas e udevistas diriam que isto ocorreu devido à “revelação” obtida por seus líderes-fundadores... É curioso que condições socioeconômicas semelhantes possam ser encontradas em outros países latino-americanos, sem que lá tenha havido o florescimento de instituições parecidas. Penso que esta é mais uma evidência da força da matriz religiosa brasileira, marcada por uma enorme capacidade de absorção simbólica da diversidade, ressignificando e recriando permanentemente religiões, ritos, mitos etc.

É bem verdade que existem modalidades análogas às religiões ayahuasqueiras brasileiras na América do Norte e na África, como é o caso da Native American Church, que faz uso do peiote, nos EUA e no México, e do Buiti, culto fundado no consumo da iboga, praticado nos Camarões e no Gabão. Nestes dois casos, trata-se igualmente de religiões capazes de reelaborar as antigas tradições dos sistemas locais a partir de uma leitura influenciada pelo cristianismo. No entanto, nos outros países as manifestações são mais marcadamente étnicas, ou seja, costumam ser apanágio de um grupo específico, diferente do que ocorre com o Santo Daime e a União do Vegetal, no Brasil.

Qual é o tema da pesquisa de doutorado que você está desenvolvendo atualmente na Unicamp?

Labate: Pretendo analisar as transformações que o xamanismo ayahuasqueiro está sofrendo em função da demanda externa dos brancos, como turistas, ONGs e órgãos de pesquisa. Quero abordar a fusão dos universos indígena e branco através do aparecimento de vários novos personagens sociais híbridos, como neoxamãs -brancos que “viram xamãs”- e “neo-índios” -índios que se globalizam e se conectam as circuitos internacionais de turismo, conferências etc.

O campo ayahuasqueiro é um laboratório para a observação de uma tendência contemporânea mais ampla, marcada pela fusão crescente entre pesquisador e nativo, pesquisa e militância, saber cientifico e popular -o que nos permite também repensar algumas instâncias antropológicas clássicas, como o papel do antropólogo e a separação entre sujeito e objeto.

E como é nova coletânea, “O Uso Ritual das Plantas de Poder”, que você organizou com Sandra Goulart?

Labate: O livro aborda os usos rituais, tradicionais e modernos, dos psicoativos. É uma espécie de continuação da coletânea “O Uso Ritual da Ayahuasca”, ampliando agora a análise para incluir outras substâncias como o tabaco, a Cannabis, a iboga, a jurema, o pariká, a coca, espécies de Brugmansia e Brunfelsia, entre outras.

A obra procura evidenciar os múltiplos usos que estas plantas têm tido ao longo da história: os diversos usos místicos, terapêuticos, estéticos, o seu papel na promoção da coesão social e identidade étnica, na transmissão de valores culturais, no estabelecimento de contato com agentes sobrenaturais, nas transformações do “self” e assim por diante.

Ao mesmo tempo, pretendemos indicar uma ponte entre a análise sobre rituais e religião, pilares centrais da antropologia, com a questão do consumo das “drogas” nas sociedades contemporâneas, chamando a atenção para a necessidade abordagens mais interdisciplinares e menos patologizantes neste campo de estudos. A coletânea deve ser lançada no ano que vem, completando a trilogia.

Gostaria de saber um pouco de sua experiência pessoal com o chá, já que ela é inseparável de seu trabalho. Como foi seu primeiro contato com a ayahuasca? Qual o papel da bebida e dos rituais na sua vida?

Labate: Eu tomei a ayahuasca pela primeira vez em Pocinhos do Rio Verde, no sul de Minas Gerais, num núcleo da União do Vegetal. Logo depois participei de um ritual do Santo Daime, e resolvi partir imediatamente para a Amazônia, para conhecer a fonte original dessas religiões. Fiquei 40 dias pesquisando as várias vertentes.

Quando voltei, senti que algo fundamental havia mudado em minha vida e fui tomada por um certo ímpeto messiânico: “o mundo precisa saber desta planta!” (claro que depois descobri que eu não era a primeira pessoa a sentir isto...). Organizei então o Primeiro Congresso sobre o Uso da Ayahuasca (Iº Cura), na Unicamp. Desde aquela época fui várias vezes ao Peru e à Colômbia, organizei outros eventos, participei de conferências e produzi livros, enfim, o tema abarcou toda a minha vida.

A ayahuasca é algo muito íntimo. Acho que há um certo tipo de vulgarização da experiência visionária; ou talvez eu não aprecie os relatos pessoais simplesmente porque minha veia poética não é muito desenvolvida... Posso dizer, entretanto, que a ayahuasca para mim é como um aliado, que está aí para me ajudar. Ela tem me ensinado, confortado e limpado. Pois a bebida é antes de mais nada um “purgante”.

As pessoas pensam em termos de “estados alterados de consciência”, mas talvez fosse mais correto falar em “estados corporais alterados”. O seu consumo, em combinação com outras plantas, dietas e restrições implica numa verdadeira reprogramação química do organismo. Ela não é uma pílula mágica, um fim em si mesmo, mas sim um veículo cuja eficácia só pode ser medida no dia-a-dia, através das alterações que provoca no estilo de alimentação, sono, sociabilidade etc. Eu sinto que é como se fosse a chave de um parafuso: cada vez que tomo, dá mais uma volta, mais uma ajustada para eu “entrar no eixo”, tornar-me mais forte, saudável.

Ao mesmo tempo, a bebida está ligada à morte, ao além-mundo, à essência da vida. Dizem que ela ensina muito sobre a natureza, a flora e a fauna, mas comigo isto sinceramente não acontece, talvez por eu ser uma pessoa bem urbana. É claro que para um indígena, cuja narrativa da origem da própria humanidade está ligada ao aparecimento da ayahuasca na Terra, a planta possui outro status e significado. De qualquer forma, sou muito grata de ter tido a oportunidade de conhecer este mundo das plantas e remédios da floresta.

entrevista concedida em março 2004 a Ilana Goldstein, mestre em antropologia social na USP e em mediação cultural na Sorbonne, autora de "O Brasil - Best Seller de Jorge Amado"
(ed. SENAC, no prelo).

estados de consciência




estado ordinário de consciência
O “estado ordinário de consciência” resulta de diversas circunstâncias, umas culturais e outras inerentes à própria dinâmica evolutiva (filogenética e ontogenética) da consciência.

a angústia existencial
Do ponto de vista evolutivo, o surgimento, no desenvolvimento do ser, da capacidade de se reconhecer _ de construir uma auto-imagem _ assim como de imaginar o futuro e se projetar nele, descobrindo-se finito, limitado e mortal, impermanente, gera de imediato uma síndrome latente de “angústia existencial”, onde predomina o medo: o medo de adoecer, de morrer, de vir a sofrer necessidades e carências.

Essa angústia existencial engendra duas reações principais:

1- Distorção dos instintos
Uma profunda distorção dos impulsos instintivos de preservação (individual e grupal), realizando no cenário da vida um “estado de crise”, que elucida muitas das atitudes expressas pelo slogan “a vida é uma luta pela sobrevivência”. O elemento regulador dos comportamentos instintivos, que no reino animal é a satisfação imediata das necessidades, desvirtua-se no ser humano, na tentativa insaciável e incessante de aliviar e compensar a angústia de ser. A busca da vantagem imediata, o hábito de poupar, guardar, segurar, analisar vantagens, investir no futuro, estimulam a seleção e hipertrofia de um certo tipo de consciência, uma coleção de arquivos mentais de idéias, de memes * (ver nota), padrões de comportamento, etc.

]ota: A memética é uma teoria proposta por Richard Dawkins no ano de 1976, no livro O Gene Egoísta, mas que somente em 1997 foi revisitada por Susan Blackmore, em um artigo publicado na The Skeptic ( No 2, 43-49), com o nome “O Poder do Meme”, seguido de outros artigos e um livro chamado “A Máquina Meme”, que conta com a introdução do próprio Richard Dawkins. O “meme” é definido como um padrão de informação gravado na memória e capaz de ser copiado na memória de outro indivíduo. “Memética” é a ciência empírica e teórica que estuda a replicação e evolução dos memes. A memética, em relação à evolução das idéias e sistemas de crenças, pode ser entendida como o equivalente da genética em relação à evolução das células e organismos. A nível biológico existe o “gene” e a nível cultural o “meme”. Os memes podem ser analisados como se fossem micro-organismos em busca de hospedeiros: a memória das pessoas.

2- Dupla dissociação (do sentimento e do corpo)
Gera uma retração, deslocamento, ou ainda fragmentação da consciência, onde a mente, espantada, se dissocia do plano existencial e mergulha na memória, na esfera dos ideais, no reino dos projetos, afastada do plano concreto, físico, orgânico. Um estado precisamente definido (pela primeira vez do ponto de vista histórico) por René Descartes ao expressar o estado de igualdade da nossa identidade com as nossas mentes_ na sua famosa declaração “je pense, donc je suis”, que de fato significa “eu sou pensamento” _ demonstrando bem o afastamento e dissociação das nossas consciências do corpo e do mundo material.

Atuando como processos complementares, autoreforçando-se, esses dois mecanismos geram uma disfunção comportamental: de um lado o estado de dissociação impede o surgimento da satisfação e saciedade; do outro, a mente sem baliza ou referências físicas não pondera bem as suas criações nem tampouco as suas intenções. Essa maneira desintegrada de se identificar corresponde e se correlaciona à concepção existencial desarmônica de um “espírito mergulhado numa natureza (ou corpo), hostil e desobediente, a ser subjugado e dominado”.

O estudo das filosofias tanto orientais quanto ocidentais, assim como de outras teses e exposições vindas dos campos da psicologia, da sociologia, da antropologia, revela a visão freqüentemente repetida de que o ser humano estaria na maior parte do tempo apenas parcialmente consciente e que técnicas diversas, como a meditação, seriam necessárias para “acordar” e deixar para trás o estado muitas vezes insatisfatório de consciência tido como “normal”.

O estado habitual seria apenas um estado de transe; a humanidade estaria dormindo ou hipnotizada pela cultura. Do ponto de vista cultural, sabemos que o processo de socialização resulta não apenas na percepção dos objetos e eventos como de fato são, mas também na percepção do que eles não são.

Está claro que não haveria nenhuma chance de sobreviver sem possuir algum grau de adequação perceptiva, mas do outro lado é também óbvio que a cultura, nossos grupos de referências imediatas, raciais, nacionais, regionais, familiares, nossos clubes sociais, afiliações religiosas, políticas, determinam consideravelmente nossos valores e sistemas de crenças assim como o tipo de cognição que seremos capazes de filtrar e elaborar, bem como a validez das categorias percebidas.

Entre cada ser humano e o resto do mundo existe uma cerca invisível, um filtro feito de pensamentos tradicionais e nunca desafiados _ porque muitas vezes são semi-conscientes ou então por simples falta de vontade_ a modular e distorcer a percepção, a ponto de que o se percebe tem muitas vezes pouco a ver com o que de fato acontece.

Respondemos a uma mistura heterogênea feita de algumas sensações, formadas por elementos diretamente percebidos, acrescidos de símbolos e imagens, impressões e sentimentos, idéias preconcebidas, culturalmente condicionadas, numa produção criativa que entendemos como sendo “a verdade” ou “a realidade”. Cada evento é imediatamente decodificado, gabaritado à moda do filtro em uso e classificado como sendo mais um caso a reforçar e ilustrar uma das categorias de vivência já definida no museu ou acervo das opções culturalmente autorizadas.

o estado inferior de consciência

Depressão e ansiedade

O fracasso histórico em reconhecer a nossa unidade e inseparabilidade da matéria/energia _ a essência universal _ e do mundo em manifestação; de aceitar a nossa relação ontológica com todas as coisas e seres e de viver em função dessa unicidade; de perceber que nossas crenças modelam a nossa realidade, de reconhecer que a vida é de certa forma um sonho ou um pesadelo em construção; a nossa incapacidade de enxergar que muito do nosso sofrimento é auto-imposto; de entender a irrealidade do passado e o imaginário do futuro, de viver o momento com mais atenção e prazer; tudo isso pode ser entendido como resultante dessa dissociação da consciência gerada pelo quadro antes descrito de “angústia existencial”.

Por conseqüência, esse estado estimula a hiper-especialização e prevalência de uma determinada maneira de ser; uma consciência mental e analítica, quantitativa, focalizada nos eventos importantes, no sentido de garantir o progresso social, econômico-financeiro, o crescimento e implemento do poder pessoal. Do outro lado, esse mesmo processo diminui a capacidade de empatizar e sentir, favorece o afastamento do sentimento, do “coração”.

A descrição desse estado existencial incompleto, distorcido, se assemelha muito com alguns dos estados emocionais e clínicos tão generalizados, reconhecidos, diagnosticados e tratados com os medicamentos ansiolíticos e antidepressivos modernos.

Esse estado de “alienação existencial” implica o surgimento de diversos sintomas, como: diminuição da vitalidade; estreitamento das perspectivas e capacidade de percepção; dificuldades em enxergar soluções; identificação persistente com aspectos restritos da sua própria experiência; diminuição de desempenho no nível das diversas modalidades de inteligência; falta geral de concentração, memória e atenção; focalização egóica e autocentrada das diversas pulsões; diminuição da responsividade aos estímulos (uma perda marcante da fluidez e espontaneidade, uma ausência de entusiasmo); sofrimentos diversos por problemas, se não criados, pelos menos amplificados por falta de flexibilidade e por hábitos mentais rígidos.

o estado ampliado de consciência

Há milênios o ser humano sabe, por experiência, que os “estados ampliados de consciência” são naturalmente geradores de conhecimentos próprios e genuínos, de dádivas criativas e muito desejadas, e por isso vem incessantemente investigando e experimentando diversos métodos para gerar esses estados criativos, noéticos e numinosos. Intuímos, através do imaginário ou a partir da memória de uma experiência pessoal _ um dia de claridade no seio da natureza, um estado extático vivenciado na infância _ que existem estados de melhor desempenho, estados de qualidade superior. Essa intuição pode motivar uma busca, acenando um caminho evolutivo.

Dois impulsos essenciais motivam e determinam a busca de estados ampliados de consciência:

1 - de um lado o desejo de encontrar remédio para o sentimento de desintegração e mal-estar existencial típico;

2 - do outro a manifestação de um impulso pro-ativo em busca de êxtase, da realização da nossa unicidade, do júbilo, da glória.

Tentar fazer da vida uma experiência mais significativa e lúcida, mais bela, mais alegre e jubilosa, mais amorosa, mais prazerosa e inteira é uma das motivações básicas do ser humano.

Elementos subjetivos, como idéias criativas, artes, imagens, visões e metáforas, sensações novas, serenidade e harmonia, bem estar, o conjunto das virtudes geradoras de felicidade, são tão atrativos e prazerosos para a humanidade quanto os recursos físicos necessários à sustentação material, do corpo.

Ser humano não implica apenas o esforço para prover a sustentação e manutenção do organismo e da vida, porém igualmente o desenvolvimento e progresso mental, a evolução num sentido amplo, a realização espiritual ou incorporação da criatividade.

Ao longo da História inúmeras técnicas já foram experimentadas para gerar estados ampliados de consciência. Elementos como cantos, danças, jejuns e dietas específicas, provas físicas exaustivas, flagelações, estresse emocional prolongado, privações sensoriais ou de sono, estados emocionais induzidos por relaxamento ou pelo uso efetivo da surpresa (hipnose), meditação, concentração intensiva, orações e mantras, músicas, danças e ritmos, respirações especiais, sexualidade, contemplação, foram e continuam sendo usados por diversas culturas, seitas e praticantes isolados.

Outras tecnologias, como plantas e gases psicoativos contendo diversos alcalóides _ substâncias capazes de interagir com os receptores neuronais _ foram e continuam sendo largamente usados na forma de fumos, chás e poções. Cogumelos, ervas, plantas e raízes diversas são usados para tais finalidades em quase todas as culturas. Elementos psicoativos, psicodélicos, são apenas instrumentos úteis para chegar a esses estados e experiências, e do ponto de vista médico não são mais censuráveis de que outros.

Quando a humanidade do terceiro milênio será finalmente capaz de adequar os seus sentimentos e experiências aos novos paradigmas da ciência moderna? Como esse antigo sentimento de isolamento e separação poderá ser superado? Precisamos entender e sentir com urgência que não somos forasteiros no universo, que não fomos lançados neste planeta por capricho divino, que não viemos de fora, que não chegamos como pássaros migratórios para passar um tempo em terras alheias; crescemos neste mundo como as plantas, as flores e as frutas. Alan Watt (tradução livre).