Arquitetura Organica

02 outubro 2005



o ócio criativo

DE MASI, Domenico. 4ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 336p.]
Domenico De Masi apresenta seu livro, reescrito em 2000, a partir de uma releitura das edições de 1995/1997. O autor refere-se ao seu novo texto como sendo fruto de um novo contexto e da crescente insatisfação diante do modelo centrado na idolatria do trabalho e da competitividade.
Propõe a criação de um modelo novo que redistribua o trabalho, a riqueza, o saber e o poder.

Escrito sob a forma de uma entrevista, tendo como interlocutora Maria Serena Palieri, a obra compõe-se de uma introdução e quatorze capítulos.Na introdução, a entrevistadora tece considerações iniciais sobre o tema e faz uma pequena biografia do autor.

O primeiro capítulo, inicia com a abordagem do tema e segue com o autor descrevendo o desenvolvimento do ser humano até o advento da sociedade industrial. Centra nas questões relativas ao trabalho e à tecnologia e salienta as transformações da época onde, segundo o autor, a união de três fatores de mudança determina a mudança paradigmática. São estes fatores a descoberta de novas fontes energéticas, uma nova divisão do trabalho e uma nova organização do poder.

No segundo capítulo, o autor inicia falando sobre a sociedade industrial, suas origens no Iluminismo, suas características e o conceito de trabalho que se estabelece nesta época.

No terceiro capítulo, aborda as características da industrialização e os princípios sobre os quais ela se estabelece, tais como, estandardização, especialização, sincronismo, maximização, centralização, concentração, que compõem, em resumo, uma racionalização.

O quarto capítulo inicia com a discussão sobre o possível fim da sociedade industrial e o autor posiciona-se dizendo que o contexto atual não pode ser considerado como uma continuação da sociedade industrial. A seguir, defende esta sua afirmação enumerando as razões que a determinam e passa a falar da sociedade pós-industrial e da cultura pós-moderna.

No quinto capítulo, fala sobre o nascimento da nova sociedade e discorre principalmente sobre as mudanças no capitalismo e no trabalho, que caracterizam esta nova sociedade. Em relação à economia e ao trabalho retrocede fazendo um apanhado sobre o desenvolvimento econômico e sobre as relações e condições de trabalho até a época atual. Enfatiza as mudanças da produção para os serviços e a predominância do trabalho intelectual sobre o trabalho manual, tudo atrelado à mudança tecnológica.

No sexto capítulo, usando as concepções de Alvin Toffler, retrata as transformações pós-modernas nos aspectos sócio-econômicos-políticos-culturais, com ênfase nos culturais.

No sétimo capítulo, caracteriza a sociedade pós-industrial como uma sociedade previdente e programada. Fala da pesquisa científica e sua importância nos processos econômicos. Pontua a emergência da mídia e do marketing como mediadores nos ciclos de giro do capital. Caracteriza as relações pós-industriais como basicamente uma guerra entre empresas e propõe que os meios de sobrevivência dos pobres consistirão em prover audiência televisiva para os ricos. Nisso tudo, embora acredite na decadência dos conflitos de classe, aponta, com Alain Touraine, a divisão da sociedade em 'dirigentes', 'dominantes', 'defensivos' e 'propositivos'.

No oitavo capítulo, faz um resumo das características condicionantes da sociedade pós-industrial. Aborda a globalização, o progressivo aumento do tempo livre pelo desenvolvimento tecnológico e pela nova configuração do trabalho, a intelectualização do trabalho, a subjetividade. Acrescenta às características anteriores a questão da desestruturação tempo-espaço e o nomadismo geral na vida contraposto a um sedentarismo nas ações diárias. No aspecto da razão, diz que a sociedade pós-industrial tem como valor a emoção e a feminilidade características de uma sociedade andrógina.

No nono capítulo, fala sobre o trabalho e propõe que, atualmente, reduzir para uma carga de 5-6h/dia de trabalho não afetaria em nada a produção. Enfatiza os aspectos culturais como condicionantes do maior tempo de permanência no trabalho. Fala sobre o teletrabalho e, na questão do desemprego, advoga que somente se reduzida a jornada para umas 3 horas/dia e implantada uma semana e mês menor de trabalho, seriam criados novos empregos.

No décimo capítulo desenvolve o assunto do teletrabalho e da crescente evolução tecnológica e suas implicações.

No décimo primeiro capítulo, fala sobre o futuro do trabalho, seu centramento nas atividades intelectuais criativas e as condições necessárias para a sua existência. Retoma conceitos de ócio e ócio criativo e interpõe uma nova cultura em detrimento da atual cultura empresarial que é autoritária e rígida.

No décimo segundo capítulo, aborda as transformações culturais por vir. Fala sobre a emergência da virtualidade e de um sujeito digital. Um sujeito que tende ao ecletismo, a colagem, ao ecologismo, e que confunde tempo livre e trabalho, mas que vive, em geral da renda familiar.

No décimo terceiro capítulo, De Masi continua falando do futuro. Propõe que devemos trabalhar baseados na 'solidariedade de estímulos criativos' ao invés de como dever e projetar continuamente nossa existência. Tece considerações de como será a sociedade no futuro considerando as palavras-chaves de 'complexidade' e 'descontinuidade', aceitando a velocidade e aprendendo a manejar o tempo.

No décimo quarto e último capítulo, De Masi aborda a criatividade e a educação para a criatividade como motores das mudanças no trabalho e nos processos organizacionais. Resume e aprofunda o entendimento sobre o ócio criativo. Rejeita os modelos sociais existentes como inadequados, mas não propõe concretamente uma alternativa. Finaliza falando sobre a ética do ócio como uma filosofia de viver.
Suzana Gutierrez

entrevista domenico de masi

Você já imaginou fazer apenas o que gosta a vida inteira? Mas e daí, viveria do quê? Sonhos? Se imaginarmos o trabalho como um fardo, a situação realmente parece impossível. Mas e se o trabalho, o lazer e o estudo começassem a se misturar em nossas vidas de tal forma que não desse mais para diferenciar uma coisa da outra? Esta é a proposta de Domenico de Masi, sociólogo italiano da Universidade La Sapienza, de Roma, e presidente da Escola de Especialização em Ciências Organizativas, a S3 Studium.

Ele defende a idéia que é chegado o momento de cultivarmos o ócio criativo para uma nova era. Utopia? Não. Cada vez mais pessoas e empresas aderem aos seus conceitos e passam a ter vidas mais felizes e produtivas. A produção desta entrevista ocorreu dentro do conceito de teletrabalho e envolveu pessoas comprometidas com esta idéia. Luiz Carlos Pires, jornalista e antropólogo, coordenou a equipe formada por Sonia Grisolia, Manoel Fernandes Neto e Mario Persona. A tradução é de Cristina Fioretti.

Pergunta: Quais foram os ganhos tangíveis e os que continuam intangíveis na revolução virtual do trabalho e no tempo livre, observados no XV Seminário de Ravello, onde o senhor foi um dos organizadores ?

Domenico De Masi: Os ganhos tangíveis consistem no fato de que se consegue produzir mais bens e serviços com menor esforço físico e menos stress intelectual. Os ganhos intangíveis estão na possibilidade de se usufruir, em tempo real, de uma rede de interlocutores, de amigos, de colaboradores.

Pergunta: Reunidos no Japão na mesma época do Seminário, os sete países mais ricos do mundo acharam que para a nova economia ser implantada em todo o planeta os ricos precisariam dar Internet para os pobres. Como os filósofos em Ravello viram isto ?

Domenico De Masi: De espontânea vontade os ricos nunca darão nada aos pobres. É necessário que os pobres saibam defender os seus direitos e obter as próprias vantagens. Em todos estes anos nos quais o G7 se reuniu, na América o número de presos dobrou e em todo o mundo aumentou a distância entre ricos e pobres.

Pergunta: Na Widebiz, na Nova-e e na wwwWriters, empresas virtuais, o teletrabalho faz parte dos seus cotidianos, onde se mistura prazer, estudo e trabalho, mas também se sente culpa pela liberdade, o que nos leva a trabalhar mais e, às vezes, não sabemos se estamos trabalhando por culpa ou diversão. O aprendizado do ócio criativo passa por esta etapa em que não percebemos que estamos transformando o paraíso num inferno ?

Domenico De Masi: O ócio criativo é uma arte que se aprende e se aperfeiçoa com o tempo e com o exercício. Existe uma alienação por excesso de trabalho pós-industrial e de ócio criativo, assim como existia uma alienação por excesso de exploração pelo trabalho industrial. É necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc.

Pergunta: Hoje na Internet percebemos, por um lado, os poderosos de sempre tentando cercear e organizar o caos, e por outro, os "criativos" inventando soluções que pulam estas barreiras, como os programas Napster e o Gutnella. A sociedade criativa sobre a qual o senhor fala estaria nascendo aqui e como se distribuiria nela o poder ?

Domenico De Masi: Na sociedade industrial a maioria das funções de trabalho exigia pouquíssimas aptidões profissionais. Mesmo um macaco poderia trabalhar na linha de montagem. Na sociedade pós-industrial a maioria das funções de trabalho exige notáveis aptidões intelectuais. Disso deriva o perigo de um superpoder das classes profissionais, de uma ditadura dos clérigos sobre os leigos.

Pergunta: O senhor acha que as novas empresas ponto-com já administram seus recursos humanos de forma inovadora?

Domenico De Masi: Os call-center são linhas de montagem muito parecidas com aquelas com as quais a Ford construía o velho Modelo T. As empresas pós-industriais ponto-com administram os recursos humanos como se fossem velhas empresas industriais. Ainda ninguém inaugurou modelos organizacionais baseados na motivação (no lugar do controle), na desestruturação do tempo e do espaço, na redução do horário de trabalho, na perfeita igualdade entre homens e mulheres.

Pergunta: O senhor vê o teletrabalho que algumas empresas já adotam como a forma correta de motivar, bastando para isso estar longe da empresa no mundo real para ser mais criativo? O que é, na sua opinião, um modelo de relação de trabalho ideal?

Domenico De Masi: O teletrabalho serve para economizar tempo, dinheiro e stress. Sozinho, não assegura nenhuma criatividade. Uma relação de trabalho ideal permite aos trabalhadores não apenas ganhar dinheiro, mas também de satisfazer as necessidades de introspecção, amizade, amor, diversão, beleza e convivência.

Pergunta: O senhor enxerga a instituição do trabalho como a conhecemos hoje como inadequada. Suas idéias não poderiam vir a se tornar em uma nova instituição, sujeita também ao envelhecimento?

Domenico De Masi: Todas as idéias estão sujeitas ao envelhecimento. Esta é a lei do progresso.

Pergunta: Idéias são importantes, porém colocá-las em prática são sempre um desafio. O senhor acredita que suas idéias devam ser colocadas em prática, ou seriam elas apenas uma previsão do que acontecerá naturalmente ? Domenico De Masi: Nenhum progresso acontece automaticamente. É necessário criar um movimento de opinião e depois um grupo de luta para colocar em prática as idéias inovadoras. Pergunta: Toda a economia convencional está baseada na forma como trabalhamos hoje. Não haveria uma mudança drástica na economia caso suas idéias fossem postas em prática, ou será que seria necessário primeiro uma mudança na economia para criar o ambiente propício à concretização de suas idéias?

Domenico De Masi: As mudanças estruturais e aquelas culturais se influenciam entre si. Eu espero que a difusão de minhas idéias consiga criar um grupo crítico de pessoas dispostas a mudar realmente o seu modelo de vida e lutar para conquistar a felicidade.

Pergunta: O senhor poderia dar um exemplo de algum país ou empresas que já estejam aplicando suas idéias, ou parte delas, com resultados positivos e que possamos identificar?

Domenico De Masi: Em todo o mundo começa a haver pessoas ou grupos ou empresas ou cidades que impõem os seus modelo de vida sobre bases completamente novas. No Brasil é suficiente ver o caso de Ricardo Semler em São Paulo, o caso de Lerner em Curitiba, o caso de Oscar Niemeyer no Rio.

Pergunta: Muitas pessoas simpatizam com suas idéias. Estariam elas apenas concordando com sua natureza abstrata porque não gostariam de mudar tanto ?

Domenico De Masi: A maioria das pessoas que concorda com as minhas idéias sente uma real necessidade de modificar o modelo de vida imposto ao ocidente americanizado sob o impulso do pensamento empresarial: competitividade cruel, stress existencial, prevalência da esfera racional sobre a esfera emocional.

Pergunta: Sabemos que todos estamos, de um modo ou de outro, descontentes com o modo de vida que levamos, o que nos leva a filosofar sobre alternativas sonhadas. O sucesso de suas idéias não poderia ser atribuído justamente ao fato de poder ser tomado como algo intangível pelas pessoas, algo irrealizável ?

Domenico De Masi: Espero que não.

Pergunta: O senhor disse que gostaria de alimentar seus dias de ócio criativo no Brasil. Como isto seria possível num país que, apesar de sua dança, oralidade, alegria e sensualidade, é extremamente injusto socialmente ?

Domenico De Masi: Diz Oscar Niemeyer, isto é, o maior arquiteto vivo: "O que conta não é a arquitetura mas os amigos, a vida e este mundo injusto que devemos modificar". E diz também: "Se eu fosse um homem rico, me envergonharia". Se eu vivesse no Brasil, procuraria imitar Oscar Niemeyer.

Pergunta: A natureza das empresas hoje é bem diferente daquilo que o senhor imagina como sendo ideal. O senhor acredita que mudanças drásticas precisariam ser feitas em todo o sistema produtivo para poder abraçar uma nova forma de trabalho?

Domenico De Masi: Não. Podem começar também em empresas individuais. Quando uma empresa inaugura um modelo organizacional baseado em minhas idéias, ganha muito mais e os seus trabalhadores são muito mais felizes.

Pergunta: Como o senhor vê a contribuição da Internet e de uma sociedade voltada para o virtual na concretização de suas idéias ?

Domenico De Masi: A Internet é uma oportunidade maravilhosa. Estou feliz em viver em um mundo onde existe a Internet.

Pergunta: Que conselho o senhor daria a um empresário que quer redesenhar sua empresa levando em consideração suas idéias ?

Domenico De Masi: Que venha para a Itália, para minha escola, e fique conosco todo o tempo necessário para projetar uma empresa feliz.

Pergunta: Na relação de trabalho, o senhor acha que o Estado deve ajudar a direcionar para o ideal ou simplesmente tirar sua mão do processo e deixar que ele aconteça naturalmente ?

Domenico De Masi: No contexto humano, nada acontece naturalmente: tudo é fruto da inteligência, da programação e da vontade das pessoas. Só o liberalismo crê que o mercado resolve "naturalmente" todos os problemas.

Pergunta: Quanto mais a sua teoria é debatida mais empresas surgem com conceitos duvidosos: desenvolvem uma nova visão da escravidão onde o chicote é um sistema interno de comunicação terrorista que apregoa o trabalho e a servidão como único bálsamo para o desenvolvimento profissional. Gostaríamos que o senhor comentasse esta questão e dissesse quanto tempo vai demorar para estas empresas perceberem o equívoco. Domenico De Masi: Muitos seres humanos são masoquistas. Depois se tornam sádicos. Depois se tornam sadomasoquistas. Não sei se ou quando as minhas idéias triunfarão. O meu dever é difundi-las e agir tenazmente para que se firmem o mais rápido possível.Pergunta: Quando o homem vai usar a tecnologia favoravelmente a um estilo de vida enriquecedor?Domenico De Masi: Ricos economicamente? Hoje já é usada com esta finalidade. Ricos humanamente? Quando substituirmos uma sociedade competitiva por uma sociedade solidária. Pergunta: É possível humanizar o capitalismo ? Domenico De Masi: O capitalismo é baseado no egoísmo e na competitividade: isto é, sobre premissas brutais, não humanas. Portanto é impossível humanizá-lo. Pergunta: A nanotecnologia prevê um futuro sem fome, doenças, velhice e trabalho. O natural seria estar desempregado e fertilizando uma sociedade efetivamente criativa e ociosa. Mas como somos impulsionados pelas ambições pessoais de TER e não de SER, esta mudança de foco drástica não seria pura utopia, relegando a nanotecnologia a categoria de não compatível com a espécie humana?
Domenico De Masi: A espécie humana sempre combate a sua incansável luta contra a morte, a dor, a miséria, o cansaço. Um bilhão de pessoas já conseguiu vencer esta batalha contra a dor, a miséria e o cansaço. Resta a morte, mesmo se vivemos o dobro de nossos bisavós.

Pergunta: Como o senhor sente o ócio contemplativo, o ócio pelo ócio, o simples prazer de contemplar a vida ?

Domenico De Masi: Eu não gosto do ócio puro: depois de um pouco de tempo, me aborrece. Eu gosto do ócio "criativo": isto é, a síntese do trabalho, do estudo e da diversão. O ócio criativo nunca me aborrece. Nem mesmo se tenho que responder a 22 perguntas.

Mario Persona é consultor, escritor e palestrante.
Esta crônica faz parte dos temas apresentados em suas palestras.

1 Comments:

At 3:47 PM, Blogger Susan Hanson said...

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Posted on Sunday, October 02 2005 @ 02:49:52 CEST by LSDsmurf AIBO is a free-spirited and seriously intelligent companion with a burning desire to entertain.
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