Arquitetura Organica

02 outubro 2005








a nova civilização do terceiro milênio
pietro ubaldi

O novo princípio é ordem.

Não se trata aqui de questões puramente teóricas, de remotos e abstratos problemas filosóficos que não nos dizem respeito. Trata-se da superação de nossa dor e da ciência que se propõe supe­rá-la e vencê-la; trata-se de enormes vantagens utilitárias compensadoras do esforço e do tormento da mortificação a que o homem está submetido; trata-se de, finalmente, ensi­nar e viver, não mais como crianças loucas, mas como adul­tos cheios de sabedoria. Trata-se de ver com clareza tudo quanto se relaciona com nosso destino humano, de obter resposta que esgote todos os porquês e todos os problemas que nos dizem respeito, e de comportarmo-nos, desse modo, com pleno conhecimento da conseqüência das nossas ações. Loucura continuar a atirar assim ao acaso e a embater-se continuamente contra reações que estupidamente desejamos e nos açoitam até sair sangue. Chegou a hora de compre­ender o delicado mecanismo dos fenômenos e de civilizarmo-­nos, não de brincadeira como até agora se fez; não mais na superfície apenas, mas em profundidade também; não só na forma, mas na substância; tanto nos meios como no fim; na matéria e no espírito.

Entramos na fase construtiva, a vida colhe seus valores positivos e, nos ânimos batidos pela dor, os reconstrutores encontram o terreno preparado para o trabalho. O espírito, que através de tanta destruição se li­bertou de muitas das incrustações e escórias da matéria, pode finalmente dizer, depois de superado o profundo des­moronamento da onda descendente do materialismo: eu sou, esta é minha vez, posso criar. E a vida, que parecia prostra­da e morta, torna a soltar mais forte e mais para o alto, seu eterno grito de juventude.

Vamos agora transportar para o plano humano da ação essa mas­sa de conceitos, transformar em concreto impulso constru­tivo a luminosidade desse imponderável, isto é, vamos trans­formar o princípio em ação, mas ação que as premissas cósmicas iluminem, sustentem e justifiquem.
Trata-se de dar forma bem mais próxima e tangível, mais particular, porém mais real (porque mais aderente à hora histórica), mais hu­mana, atual e prática, aos princípios universais de um tra­tado universal.

Nossa hu­manidade é primitiva: riquíssima de energia, mas pobre de sabedoria; extremamente dinâmica e extremamente ignorante. É fato conhecido. O homem é o que é e está bem onde está. As dores que o gravam lhe são proporcionais à sensibilidade e à ignorância. As provas que encontra e deve superar são as da sua classe, do seu nível evolutivo, adapta­das a suas capacidades. Para sermos práticos e compreen­síveis devemos permanecer ainda nessa atmosfera, com o objetivo preciso, porém, de levar-lhe a luz que lhe falta.

Um dia se com­preenderá que vale o que somos, queremos e sabemos fazer e, portanto, merecemos, e não o que possuímos. O objetivo hoje é possuir e o homem é o meio; no entanto, o possuir é meio e o homem, fim. O efeito é dado pela causa; toda forma de vida tem as características derivadas das de seu germe. Assim, todo fenômeno se plasma e se desenvolve diversamente se­gundo a natureza das suas forças determinantes. Só quando o homem começar a compreender esses princípios tão elementares poderá começar a chamar-se civilizado.

... Trata-se de progredir e sa­bemos que a evolução é processo de progressiva harmonização...

... Se o homem seguisse a Lei, esta natu­ralmente proveria todas as suas necessidades....

O que mais vale não é possuir, na forma exterior, mas na interior; não nos efeitos, materiais, mas nas causas, espirituais; não nas garantias legais, mas nas nossas capacidades e qualidades. A única verdadeiramente segura é essa riqueza inalienável que não pode ser roubada porque é inseparável da personalidade, dada pelas nossas próprias qualidades. É segura e duradou­ra porque é a única verdadeira, honesta, justa, em equilí­brio com as forças da vida. Isso deriva das próprias quali­dades, é filho do mérito porque as qualidades só com o pró­prio trabalho se conquistam e nos tornam conceituados porque foi a nossa atividade e fadiga que as gerou e fixou. Se as possuímos é porque as conquistamos. Só então os bens são verdadeiramente nossos porque temos, fixadas em nós como instintos, as capacidades para sabê-los manter; e se os perdermos, para saber reconquistá-los. Doutro lado, quando não possuímos as capacidades e, portanto, o mérito e, assim, o direito, o dinamismo do fenômeno é cheio de desequilíbrio e se esgota, cedo ou tarde. Então os bens tendem a fugir-nos das mãos; perdemo-los porque não os sabemos administrar e, perdidos, não sabemos reconquistá-los. Eis como finalmente, não obstante todas as protetoras barreiras humanas da injustiça, a interior justiça da lei emerge.

Começamos a subir os primeiros degraus das ascensões humanas. A atual maioria da humanidade vive e age in­conscientemente como fantoche manobrado por instintos, sem saber nada a respeito do porquê das coisas, sem com­preender o que e por que faz, as reações a que dá nasci­mento, as conseqüências dos próprios atos. Por esse conhe­cimento fundamental, que, segundo a lógica mais elemen­tar, deveria anteceder qualquer ação, o homem de nossos dias raramente se interessa e prefere, em primeiro lugar, agir, para depois compreender. Parece que os problemas do animal bastam para encher-lhe a vida e saciá-lo. Talvez o homem comum se perdesse em meio a essas questões que devem parecer-lhe de complexidade espantosa, a ele que vive na periferia, na superfície, e não no centro, na profundida­de. O pensamento das filosofias, apresenta-se-lhe contradi­tório; o das religiões, insuficiente; o da História, desconexo; o da política, faccioso e interessado. Em face dos mais im­portantes e, contudo, mais simples e necessários problemas da vida como, por exemplo: "Quem sou? Donde vim? Para onde vou? Por que vivo? Por que sofro?", o homem se per­cebe desnorteado e só porque o pensamento humano ainda não soube encontrar a síntese completa que lhe responda a tudo e, se tivesse sabido, conseguiria interpretá-la apenas de acordo com sua relativa maturidade. O homem de nos­sos dias vive, assim, em uma espécie de resignação à igno­rância, de adaptação à inconsciência; contenta-se em vegetar. Se isso pode ser dura contingência de sua evolução, é também triste aceitação e humilhante declaração de incom­petência. Podemos continuar a viver nesse estado? Só o in­voluído pode contentar-se com ele. Podemos continuar a agir sem entendimento, somente à custa de suportar as dolorosas conseqüências dos inevitáveis erros e desastres de que está cheia a vida individual e coletiva. Não é por isso? Certamente, que aos acontecimentos humanos, individuais e coletivos, faltará diretiva; esta, porém, não é confiada ao homem, não pode ser revelada a inconscientes; mas sê-lo-á qualquer dia, quando houver conquistado conhecimento e sabedoria. A formação de nova civilização do espírito, a for­mação do novo tipo humano do III milênio significa a con­quista de novo e imenso domínio, com o controle exato das diretivas da vida em nosso planeta. Não se trata de revolução social, exterior e formal, mas de maturação biológica, profunda e íntima.

O homem atual crê estar sozinho no caos; no entanto, participa de imenso organismo. Involuído e, pois, insensível, inconsciente e ignorante, vê a desordem da superfície em que vive e nem suspeita a ordem presente nas causas, no interior das coisas. Enquanto evolui, deve o homem apren­der a tornar-se cidadão dessa pátria maior, o universo, e colaborador consciente desse grande organismo, harmonizando-se com todos os fenômenos irmãos e criaturas irmãs, com seus semelhantes, com as forças da Lei. A felicidade e o paraíso consistem, exatamente, nessa harmonização. Semeando, como fazemos, em ignorância e rebelião, só se pode colher reação e dor. Semeando em sabedoria e harmonia, colheremos felicidade e paz. Isso significa civilizar-se a sério e não, ter aprendido a construir máquinas sem, depois, saber fazê-las trabalharem. Em todo campo, políti­co, social, científico, filosófico, moral, torna-se necessário passar do sistema caótico ao sistema orgânico. O sistema do universo é perfeito. Nós, que não sabemos mover-nos nele, é que somos imperfeitos. Esse sistema contém a pos­sibilidade de toda a nossa felicidade.

Para resolver os problemas, o caminho não é a violência e a impo­sição, mas a harmonia e a obediência. Basta havê-lo compreendido, para se por de lado todas as concepções de que habitualmente se vive.