Arquitetura Organica

02 outubro 2005



formação de uma consciência crítica


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1. O agnóstico admite como princípio fundamental que não é possível conhecer nada que esteja fora de suas possibilidades de conhecer e que estas se esgotam no finito e não abrangem, portanto, o transcendente.

2. Para o agnóstico, o Deus transcendente das religiões monoteístas é uma arbitrária hipótese metafísica, indemonstrável por não haver, de Deus, nenhum atributo objetivo capaz de ser refutado, resultando daí o lema: “tudo se pode dizer do que não se pode refutar”. Assim, de Deus pode-se dizer tudo porque não se conhece nada. Não havendo possibilidade de verificar a hipótese da existência de Deus, o agnóstico se despreocupa dela. Não se propõe questões cuja verificação não é possível.

3. O agnóstico considera admissível a crença cujo objeto seja uma hipótese plausível sobre a origem e o sentido do mundo. Inclui também como hipótese plausível a que nega sentido às questões escatológicas, entendendo que o sentido do mundo é o que lhe dá o homem, pois as coisas não têm um sentido além de sua mera existência. As coisas são o que há, sem mais. O sentido de cada ente depende do próprio sentido que o ser humano lhe dá, decorrente de seus interesses pessoais, de sua personalidade, de sua maneira de ver as coisas enfim, sem especulação sobre algum suposto horizonte religioso como matriz criadora ou definidora dos fins do mundo.

4. O agnóstico está perfeitamente instalado na finitude, ou seja, na realidade material e imaterial que constitui o que existe, em contraposição ao transcendente, tanto naquilo que chamamos matéria como no que chamamos espírito, que não podem existir separadamente um do outro.

5. Para o agnóstico, o espírito é parte do mundo e portanto pertence à finitude. Por conseqüência, a espécie humana se realiza no que chamamos matéria, sem que se possa omitir no conceito de matéria sua relação substancial com o espírito, formando com ele um todo indivisível.

6. O agnóstico não é tomado pela fé transcendente: fé que não procede de Deus, admitido como hipótese indemonstrável, mas que determina a existência de Deus e de todos os seres celestes, e que, além disso, é excludente. Assim, cada um dos três monoteísmos ocidentais_ judaísmo, cristianismo, islamismo_ nega a “verdade” propagada pelos outros dois e engendra, por sua própria natureza, intolerância e fanatismo, contra o que se posiciona o agnosticismo.

7. O traço comum dos três monoteísmos _ a fortíssima impregnação antropomórfica de um Deus pessoal, que pode estabelecer uma relação com os fiéis­ _ nada tem a ver com a relação iogue com o transpessoal. Daí que as transformações esotéricas da piedade cristã (respeito às questões religiosas) em formas de mística oriental não só não potencializam a fé monoteísta, como tendem a esvaziar seu sentido. Muitos cristãos são inclinados a aderir ao Zen Budismo ou à Meditação Transcendental. Mas o que significa para eles Deus se o seu interlocutor pessoal é uma energia infinita? Que pode significar sua imortalidade se já não são mais do que uma nuvem de ondas ou partículas que se espargem num todo energético após a cremação? São todas formas alienatórias de consciência, que o agnosticismo nega definitivamente, inclusive porque conceber a Igreja Cristã, ou qualquer religião, como um corpo homogêneo de crenças do qual os fiéis participam por igual, é uma ilusão. Há, portanto, para o agnóstico, que não admite tais concepções, uma tranqüilidade vital, que provém de estar isento e satisfatoriamente instalado na finitude.

8. Mas o “não ser tomado pela fé transcendente” do agnóstico, não é uma simples negação, mas, ao contrário, uma posição dialética de conteúdos definidos, que se verificam no marco de um processo histórico-cultural que deve ser bem entendido. Este processo, que exige estudo acurado, remete a um campo semântico que proporciona um rico tecido de convicções éticas, sociais, políticas e econômicas, de contornos precisos e racionalmente analisáveis. O mundo, para o agnóstico, é assumido como finitude, o que revela todo o conteúdo positivo da concepção agnóstica.

9. O agnóstico admite que a fé transcendente pressupõe uma afirmação inquestionável, portanto, uma “verdade absoluta”. Mas tal “verdade” não poderia ter sido estabelecida por Deus, que é apenas uma hipótese personificada pelos monoteísmos. Foi portanto estabelecida por homens, ao longo da história, tendo sido, através de manipulação e adaptações, modificada em sua formulação original de acordo com interesses específicos.

10. O agnóstico admite que a fé se reduz, definitivamente, a uma esperança de imortalidade num mundo celestial, capaz de aplacar o “terror mortis”, e que é supostamente capaz de promover a concessão de “graças”. Por não ser baseada em fatos que se possam refutar objetivamente e por não possuir uma base empírica intersubjetiva, não permite a argumentação. Portanto, para o agnóstico, ante o fenômeno da fé nada cabe senão o silêncio.

11. O agnóstico aceita e vivencia intensamente o agnosticismo, palavra derivada do grego pela composição da partícula “a”, que nega a noção subseqüente, e de “gnosis”, que significa conhecimento. Portanto “agnosis”, através da transliteração de “agnostos”, significa “não conhecido” ou “ignorado”. Assim “agnosticismo” é a doutrina que nega à inteligência humana a capacidade de conhecer a “verdade absoluta”. Admite que a fé é a submissão a determinada afirmação de ordem transcendente, aceita como verdadeira quer seja ou não. O agnóstico, porém, respeita a fé professada pelas pessoas, na convicção de que frente a este assunto todos os argumentos desmoronam porque a fé não argumenta, simplesmente crê.

12. O agnóstico, por estar perfeitamente situado na finitude, não admite uma realidade transcendente. Como decorrência desta concepção, ficam eliminadas de pronto, por falta de um embasamento racional todas as superstições, crendices e os clichês de natureza religiosa (graças a Deus, se Deus quiser, etc), que constituem o crivo pelo qual devem passar todas as afirmações.

13. O agnóstico se impõe como o ser humano sem tragédia teológica, isto é, sem viver a contradição entre a vida neste mundo e a vida além deste mundo, pois para ele só existe este mundo, isto é, a finitude. E nessa convicção se encontra a serenidade vital do agnóstico, para o qual os acontecimentos de sua vida são fatos que se dão sem nenhuma causação exterior ao mundo. A ausência do transcendente dá serenidade sem resignação, pois esta supõe uma instância superior à razão que determina as contradições do mundo. O mundo há que aceitá-lo como é.

14. O agnóstico tem como meta permanente a auto-realização e portanto a felicidade, posto que esta é conseqüência daquela. A auto-realização, como pressuposto da felicidade, implica, como o nome diz, em ser _ apesar de suas deficiências _ auto-realizado, isto é, um ser humano integral, não instrumento de uma autoridade transcendente de qualquer tipo, não resignado, não infeliz, não desencorajado pelas vicissitudes da vida, não culpado pelo pecado de Adão (que exige a “Redenção”), mas sim consciente de sua capacidade de realizar o seu potencial e de manter-se imperturbável ante o sofrimento.

15. A satisfação do agnóstico é a satisfação do que o mundo pode oferecer, mesmo nos casos em que a finitude é dor ou preocupação, procurando, na medida do possível, reverter tais situações, mas capaz de assumir, com coragem e fortaleza, aquilo que a finitude lhe apresenta.

16. O fundamento do agnosticismo consiste em assumir radicalmente a finitude do ser humano, sem o álibi da transcendência ou de qualquer ideologia, esforçando-se por construir um mundo não tomado pelo fanatismo determinado pela fé, produzindo códigos de valores favoráveis ao respeito à vida, à liberdade, à justiça e à lealdade.

17. O agnóstico admite que a idéia de uma verdade intemporal, definitiva e absoluta outorgada por uma divindade onisciente e administrada por uma burocracia clerical, não engrandece o homem, apenas consagra a credulidade dos que dão as costas à razão.

18. O agnóstico aceita a possibilidade da transformação da consciência, sem o que o agnosticismo não pode ser vivido em sua plenitude, pois exige uma alta capacidade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados, avaliados pela própria consciência. A idéia subjacente é a de que o que conta é o que sentimos e fazemos e não apenas o que dizemos, e que, portanto, somos os únicos responsáveis pelo sentido que damos às nossas vidas, posto que não existem poderes misteriosos fora de nós mesmos, e que, portanto, devemos aprender a superar os bloqueios que nos impedem de realizar-nos autonomamente alçando-nos acima das sempre enganosas ideologias.

19. O agnóstico, liberto de toda classe de dependência, reconhecendo e desconstruindo, através do estudo, da pesquisa, e da prática cotidiana, as falsas crenças e bloqueios que obstruem a mente, torna-se um terapeuta do seu espírito, capaz, finalmente, graças a uma autodeterminação total, de chegar ao encontro de sua própria força interior e de exercê-la.

20. O agnóstico não admite a existência de almas nem de espíritos que se movam livre, misteriosa ou sigilosamente numa realidade transcendente. Admite sim a existência de seres humanos em que a dualidade matéria espírito não implica em cisão ontológica, seres humanos que nascem e morrem no único mundo que existe, o mundo do aqui, mesmo que a finitude inclua realidades não vizualizadas.

21. Totalmente liberto, o agnóstico contribui para o processo evolutivo global. Em outras palavras: o despertar da própria consciência para um mundo novo promove a elevação da consciência dos que o cercam e também contribui para a plenitude do humanismo. Este processo é ao mesmo tempo popular, porque é acessível a todos os que tiverem vontade de se integrar, e elitista porque só a elite intelectual decidida a elevar a consciência e a mudar a realidade pode fazê-lo.

Fonte:
extratos de ‘Agnosticismo’ e ‘Razão Religião e Estruturas de Poder’
Ed Juruá de João Laurindo De Souza Netto