Arquitetura Organica

02 outubro 2005

estados de consciência




estado ordinário de consciência
O “estado ordinário de consciência” resulta de diversas circunstâncias, umas culturais e outras inerentes à própria dinâmica evolutiva (filogenética e ontogenética) da consciência.

a angústia existencial
Do ponto de vista evolutivo, o surgimento, no desenvolvimento do ser, da capacidade de se reconhecer _ de construir uma auto-imagem _ assim como de imaginar o futuro e se projetar nele, descobrindo-se finito, limitado e mortal, impermanente, gera de imediato uma síndrome latente de “angústia existencial”, onde predomina o medo: o medo de adoecer, de morrer, de vir a sofrer necessidades e carências.

Essa angústia existencial engendra duas reações principais:

1- Distorção dos instintos
Uma profunda distorção dos impulsos instintivos de preservação (individual e grupal), realizando no cenário da vida um “estado de crise”, que elucida muitas das atitudes expressas pelo slogan “a vida é uma luta pela sobrevivência”. O elemento regulador dos comportamentos instintivos, que no reino animal é a satisfação imediata das necessidades, desvirtua-se no ser humano, na tentativa insaciável e incessante de aliviar e compensar a angústia de ser. A busca da vantagem imediata, o hábito de poupar, guardar, segurar, analisar vantagens, investir no futuro, estimulam a seleção e hipertrofia de um certo tipo de consciência, uma coleção de arquivos mentais de idéias, de memes * (ver nota), padrões de comportamento, etc.

]ota: A memética é uma teoria proposta por Richard Dawkins no ano de 1976, no livro O Gene Egoísta, mas que somente em 1997 foi revisitada por Susan Blackmore, em um artigo publicado na The Skeptic ( No 2, 43-49), com o nome “O Poder do Meme”, seguido de outros artigos e um livro chamado “A Máquina Meme”, que conta com a introdução do próprio Richard Dawkins. O “meme” é definido como um padrão de informação gravado na memória e capaz de ser copiado na memória de outro indivíduo. “Memética” é a ciência empírica e teórica que estuda a replicação e evolução dos memes. A memética, em relação à evolução das idéias e sistemas de crenças, pode ser entendida como o equivalente da genética em relação à evolução das células e organismos. A nível biológico existe o “gene” e a nível cultural o “meme”. Os memes podem ser analisados como se fossem micro-organismos em busca de hospedeiros: a memória das pessoas.

2- Dupla dissociação (do sentimento e do corpo)
Gera uma retração, deslocamento, ou ainda fragmentação da consciência, onde a mente, espantada, se dissocia do plano existencial e mergulha na memória, na esfera dos ideais, no reino dos projetos, afastada do plano concreto, físico, orgânico. Um estado precisamente definido (pela primeira vez do ponto de vista histórico) por René Descartes ao expressar o estado de igualdade da nossa identidade com as nossas mentes_ na sua famosa declaração “je pense, donc je suis”, que de fato significa “eu sou pensamento” _ demonstrando bem o afastamento e dissociação das nossas consciências do corpo e do mundo material.

Atuando como processos complementares, autoreforçando-se, esses dois mecanismos geram uma disfunção comportamental: de um lado o estado de dissociação impede o surgimento da satisfação e saciedade; do outro, a mente sem baliza ou referências físicas não pondera bem as suas criações nem tampouco as suas intenções. Essa maneira desintegrada de se identificar corresponde e se correlaciona à concepção existencial desarmônica de um “espírito mergulhado numa natureza (ou corpo), hostil e desobediente, a ser subjugado e dominado”.

O estudo das filosofias tanto orientais quanto ocidentais, assim como de outras teses e exposições vindas dos campos da psicologia, da sociologia, da antropologia, revela a visão freqüentemente repetida de que o ser humano estaria na maior parte do tempo apenas parcialmente consciente e que técnicas diversas, como a meditação, seriam necessárias para “acordar” e deixar para trás o estado muitas vezes insatisfatório de consciência tido como “normal”.

O estado habitual seria apenas um estado de transe; a humanidade estaria dormindo ou hipnotizada pela cultura. Do ponto de vista cultural, sabemos que o processo de socialização resulta não apenas na percepção dos objetos e eventos como de fato são, mas também na percepção do que eles não são.

Está claro que não haveria nenhuma chance de sobreviver sem possuir algum grau de adequação perceptiva, mas do outro lado é também óbvio que a cultura, nossos grupos de referências imediatas, raciais, nacionais, regionais, familiares, nossos clubes sociais, afiliações religiosas, políticas, determinam consideravelmente nossos valores e sistemas de crenças assim como o tipo de cognição que seremos capazes de filtrar e elaborar, bem como a validez das categorias percebidas.

Entre cada ser humano e o resto do mundo existe uma cerca invisível, um filtro feito de pensamentos tradicionais e nunca desafiados _ porque muitas vezes são semi-conscientes ou então por simples falta de vontade_ a modular e distorcer a percepção, a ponto de que o se percebe tem muitas vezes pouco a ver com o que de fato acontece.

Respondemos a uma mistura heterogênea feita de algumas sensações, formadas por elementos diretamente percebidos, acrescidos de símbolos e imagens, impressões e sentimentos, idéias preconcebidas, culturalmente condicionadas, numa produção criativa que entendemos como sendo “a verdade” ou “a realidade”. Cada evento é imediatamente decodificado, gabaritado à moda do filtro em uso e classificado como sendo mais um caso a reforçar e ilustrar uma das categorias de vivência já definida no museu ou acervo das opções culturalmente autorizadas.

o estado inferior de consciência

Depressão e ansiedade

O fracasso histórico em reconhecer a nossa unidade e inseparabilidade da matéria/energia _ a essência universal _ e do mundo em manifestação; de aceitar a nossa relação ontológica com todas as coisas e seres e de viver em função dessa unicidade; de perceber que nossas crenças modelam a nossa realidade, de reconhecer que a vida é de certa forma um sonho ou um pesadelo em construção; a nossa incapacidade de enxergar que muito do nosso sofrimento é auto-imposto; de entender a irrealidade do passado e o imaginário do futuro, de viver o momento com mais atenção e prazer; tudo isso pode ser entendido como resultante dessa dissociação da consciência gerada pelo quadro antes descrito de “angústia existencial”.

Por conseqüência, esse estado estimula a hiper-especialização e prevalência de uma determinada maneira de ser; uma consciência mental e analítica, quantitativa, focalizada nos eventos importantes, no sentido de garantir o progresso social, econômico-financeiro, o crescimento e implemento do poder pessoal. Do outro lado, esse mesmo processo diminui a capacidade de empatizar e sentir, favorece o afastamento do sentimento, do “coração”.

A descrição desse estado existencial incompleto, distorcido, se assemelha muito com alguns dos estados emocionais e clínicos tão generalizados, reconhecidos, diagnosticados e tratados com os medicamentos ansiolíticos e antidepressivos modernos.

Esse estado de “alienação existencial” implica o surgimento de diversos sintomas, como: diminuição da vitalidade; estreitamento das perspectivas e capacidade de percepção; dificuldades em enxergar soluções; identificação persistente com aspectos restritos da sua própria experiência; diminuição de desempenho no nível das diversas modalidades de inteligência; falta geral de concentração, memória e atenção; focalização egóica e autocentrada das diversas pulsões; diminuição da responsividade aos estímulos (uma perda marcante da fluidez e espontaneidade, uma ausência de entusiasmo); sofrimentos diversos por problemas, se não criados, pelos menos amplificados por falta de flexibilidade e por hábitos mentais rígidos.

o estado ampliado de consciência

Há milênios o ser humano sabe, por experiência, que os “estados ampliados de consciência” são naturalmente geradores de conhecimentos próprios e genuínos, de dádivas criativas e muito desejadas, e por isso vem incessantemente investigando e experimentando diversos métodos para gerar esses estados criativos, noéticos e numinosos. Intuímos, através do imaginário ou a partir da memória de uma experiência pessoal _ um dia de claridade no seio da natureza, um estado extático vivenciado na infância _ que existem estados de melhor desempenho, estados de qualidade superior. Essa intuição pode motivar uma busca, acenando um caminho evolutivo.

Dois impulsos essenciais motivam e determinam a busca de estados ampliados de consciência:

1 - de um lado o desejo de encontrar remédio para o sentimento de desintegração e mal-estar existencial típico;

2 - do outro a manifestação de um impulso pro-ativo em busca de êxtase, da realização da nossa unicidade, do júbilo, da glória.

Tentar fazer da vida uma experiência mais significativa e lúcida, mais bela, mais alegre e jubilosa, mais amorosa, mais prazerosa e inteira é uma das motivações básicas do ser humano.

Elementos subjetivos, como idéias criativas, artes, imagens, visões e metáforas, sensações novas, serenidade e harmonia, bem estar, o conjunto das virtudes geradoras de felicidade, são tão atrativos e prazerosos para a humanidade quanto os recursos físicos necessários à sustentação material, do corpo.

Ser humano não implica apenas o esforço para prover a sustentação e manutenção do organismo e da vida, porém igualmente o desenvolvimento e progresso mental, a evolução num sentido amplo, a realização espiritual ou incorporação da criatividade.

Ao longo da História inúmeras técnicas já foram experimentadas para gerar estados ampliados de consciência. Elementos como cantos, danças, jejuns e dietas específicas, provas físicas exaustivas, flagelações, estresse emocional prolongado, privações sensoriais ou de sono, estados emocionais induzidos por relaxamento ou pelo uso efetivo da surpresa (hipnose), meditação, concentração intensiva, orações e mantras, músicas, danças e ritmos, respirações especiais, sexualidade, contemplação, foram e continuam sendo usados por diversas culturas, seitas e praticantes isolados.

Outras tecnologias, como plantas e gases psicoativos contendo diversos alcalóides _ substâncias capazes de interagir com os receptores neuronais _ foram e continuam sendo largamente usados na forma de fumos, chás e poções. Cogumelos, ervas, plantas e raízes diversas são usados para tais finalidades em quase todas as culturas. Elementos psicoativos, psicodélicos, são apenas instrumentos úteis para chegar a esses estados e experiências, e do ponto de vista médico não são mais censuráveis de que outros.

Quando a humanidade do terceiro milênio será finalmente capaz de adequar os seus sentimentos e experiências aos novos paradigmas da ciência moderna? Como esse antigo sentimento de isolamento e separação poderá ser superado? Precisamos entender e sentir com urgência que não somos forasteiros no universo, que não fomos lançados neste planeta por capricho divino, que não viemos de fora, que não chegamos como pássaros migratórios para passar um tempo em terras alheias; crescemos neste mundo como as plantas, as flores e as frutas. Alan Watt (tradução livre).